domingo, 3 de outubro de 2021

As Forças Armadas não apoiam o golpe que Bolsonaro quer dar

O título deste texto é afirmativo. Uma temeridade, não é? Mas é uma questão fundamental para a formulação da estratégia política dos que desejam um futuro democrático para o país. Os que concordam com essa formulação se unirão em sua diversidade, e em múltiplos palanques, unidos pela Constituição e pela defesa do Estado Democrático de Direito, e sairão da defensiva.

Bolsonaro está em processo crescente de isolamento político. Objetivamente, as pesquisas mostram:
  • 70% dos brasileiros somente querem viver em um regime democrático (*);
  • 57% dos brasileiros nunca confiam nas declarações do presidente (**);
Politicamente, isso se traduz em uma tendência de queda de suas perspectivas eleitorais, e as pesquisas mais recentes já mostram a tendência de que seria derrotado pelos seus mais conhecidos oponentes se disputasse com eles o 2º turno das eleições presidenciais de 2022.

O seu desespero é visível e, por isso, sonha com um golpe militar para governar ditatorialmente. Tentou dá-lo nos dias 7 e 8 de setembro, mas algo o obrigou a parar. Sem dúvida, valeram - para contê-lo em seu intento golpista -, as manifestações e ações tempestivas e fundamentais dos representantes dos Poderes da República, do STF, do Congresso Nacional. E foram fundamentais as manifestações de representantes das entidades da sociedade civil, do mundo do trabalho e do capital; dos órgãos de imprensa e das redes jornalísticas comprometidas com a democracia; e dos cidadãos, em vigília cívica, que se mobilizaram massivamente nas redes sociais.


Militares que integraram a missão de paz no Haiti

A tese de Bolsonaro, repetida em muitas declarações, gravadas em áudio e vídeo, era a de que o “seu Exercito” não lhe faltaria se o povo, nas ruas, exigisse o fechamento do STF e do Congresso Nacional. Coerentemente, planejou o seu golpe levando dezenas de milhares de apoiadores para a Esplanada dos Ministérios em Brasília e para a Avenida Paulista, onde compareceu pessoalmente, discursou e proferiu diatribes graves contra o STF e seus ministros. Foram manifestações impressionantes e os que atenderam ao seu chamado, vindos em caravanas de vários estados, estiveram dispostos a suportá-lo politicamente em seu intento golpista. E, para não subestimá-las, ainda ocorreram manifestações de apoio em várias outras capitais e cidades do país. O plano do golpe foi colocado em ação!

Entretanto, algo não deu certo, por isso precisamos nos debruçar sobre a questão militar, pois, na lógica de Bolsonaro, tal plano somente poderia seguir em frente se tivesse o apoio das Forças Armadas. E esse apoio não veio.

Esta questão tem sido objeto de análise por parte de todos os que refletem sobre os inequívocos intentos golpistas de Bolsonaro desde o início de seu governo. Refere-se ao Exército como o “seu Exército”, e já trocara os comandantes das Forças Armadas para que estivessem mais alinhados com os seus objetivos, e para que fossem de sua confiança.


Com isso, teria conseguido conformá-los ao seu objetivo, de que as FA o apoiariam para governar ditatorialmente, e estabelecer um regime totalitário? Teria conseguido pactuar com elas o “fechamento do STF e do Congresso Nacional” para que, com novas regras institucionais pudesse governar de acordo com os seus objetivos? Diante de tantas ameaças, devemos considerar que muitos admitiram que sim!

Tenho defendido, em vários artigos, não ser provável que as FA o seguiriam em seus intentos totalitários. Não só por questões políticas e geopolíticas fundamentais, mas porque não teriam como seguir a esse capitão tresloucado, pois Bolsonaro não constitui nenhum padrão de competência ou moralidade, nem em sua vida pregressa, antes de ser eleito presidente, nem nas práticas atuais irresponsáveis que vem adotando em seu governo, como agora estão sendo reveladas aos detalhes pela CPI da pandemia. Definitivamente, essa “mistura inconveniente” de alguns generais palacianos com Bolsonaro já compromete não apenas o papel institucional das Forças Armadas, mas a sua imagem e credibilidade perante a população.

O 7/09 esclareceu esta questão. Simplesmente, não haverá golpe. As FA não apoiarão esse intento de Bolsonaro. Esta questão é central, pois se não há este risco não há mais a necessidade de uma união de todos os democratas, nas ruas, para resistir a ele.

A estratégia passa a ser outra. A unidade dos democratas deve ser em torno da Constituição e do Estado de Democrático de Direito. Este é o único pacto unitário. E deixar que floresça a diversidade da oposição democrática! E é imprescindível que não se confunda a estratégia eleitoral dos democratas, de derrotar Bolsonaro em 2022, com a estratégia de defesa da democracia, que deve unir a todos.

Para ficar, ainda, mais claro, os que estão comprometidos com a vitória de uma candidatura da 3ª Via devem buscar a união não para resistir a um golpe que não virá, mas para derrotar, enquanto necessidade histórica, pelo bem do Brasil, nos 1º e 2º turnos, aos candidatos da trágica polarização bolsonarismo versus lulopetismo.

Retrospectivamente, referencio abaixo os diferentes artigos em que venho tratando da questão militar; eles embasam a tese de que as Forças Armadas não apoiarão um golpe militar; e de que não serão, também, coniventes com tentativas de restringir as liberdades político-democráticas:



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(*) Os gráficos abaixo são da pesquisa DataFolha realizada de 13 a 15 de setembro:


(**)



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