terça-feira, 22 de setembro de 2020

Íntegra do discurso de Bolsonaro na abertura da 75ª Assembleia Geral da ONU

Este é um documento para referência e consulta. Deixo-o aqui sem comentários para que todos possam analisá-lo e debatê-lo com isenção.


O mundo, pela importância estratégica do Brasil, acompanha atenciosamente o que se passa por aqui. São muitas as razões: o tamanho de sua população, a sua diversidade étnica e cultural, a sua dimensão territorial, a sua economia, as suas riquesas naturais, a extensão de sua floresta amazônica, o fato de ser um dos mais importantes produtores de alimentos, etc. Foi uma longa caminhada histórica, com muito trabalho e muito sacrifício de muitas gerações. Temos cometido acertos e erros até chegarmos aqui. E precisamos, e queremos, doravante, errar o menos possível!

Estamos sendo bem representados? O Brasil tem uma liderança esclarecida capaz de conduzi-la para enfrentar os desafios do futuro? Essa liderança tem compromisso com a democracia e com os direitos humanos? Estamos sendo conduzidos para uma posição de liderança, de respeitabilidade e de compromisso com a paz no concerto das nações? E são muitas as questões fundamentais, que devemos responder, para construir o futuro desejado, necessário e possível. O debate já prossegue, aceso, entre todos os brasileiros.

Vídeo da fala de Bolsonaro - BBC


Leia a íntegra do discurso (*):


"Senhor presidente da Assembleia Geral, Volkan Bozkir;

Senhor secretário-geral da ONU, António Guterres, a quem tenho a satisfação de cumprimentar em nossa língua-mãe;

Chefes de Estado, de governo e de delegação;


Senhoras e senhores,

É uma honra abrir esta assembleia com os representantes de nações soberanas, num momento em que o mundo necessita da verdade para superar seus desafios.

A COVID-19 ganhou o centro de todas as atenções ao longo deste ano e, em primeiro lugar, quero lamentar cada morte ocorrida.

Desde o princípio, alertei, em meu País, que tínhamos dois problemas para resolver: o vírus e o desemprego, e que ambos deveriam ser tratados simultaneamente e com a mesma responsabilidade.

Por decisão judicial, todas as medidas de isolamento e restrições de liberdade foram delegadas a cada um dos 27 governadores das unidades da Federação. Ao Presidente, coube o envio de recursos e meios a todo o País.

Como aconteceu em grande parte do mundo, parcela da imprensa brasileira também politizou o vírus, disseminando o pânico entre a população. Sob o lema “fique em casa” e “a economia a gente vê depois”, quase trouxeram o caos social ao país.

Nosso governo, de forma arrojada, implementou várias medidas econômicas que evitaram o mal maior:

- Concedeu auxílio emergencial em parcelas que somam aproximadamente 1000 dólares para 65 milhões de pessoas, o maior programa de assistência aos mais pobres no Brasil e talvez um dos maiores do mundo;

- Destinou mais de 100 bilhões de dólares para ações de saúde, socorro a pequenas e microempresas, assim como compensou a perda de arrecadação dos estados e municípios;

- Assistiu a mais de 200 mil famílias indígenas com produtos alimentícios e prevenção à COVID;

- Estimulou, ouvindo profissionais de saúde, o tratamento precoce da doença;

- Destinou 400 milhões de dólares para pesquisa, desenvolvimento e produção da vacina de Oxford no Brasil;

Não faltaram, nos hospitais, os meios para atender aos pacientes de COVID.

A pandemia deixa a grande lição de que não podemos depender apenas de umas poucas nações para produção de insumos e meios essenciais para nossa sobrevivência. Somente o insumo da produção de hidroxicloroquina sofreu um reajuste de 500% no início da pandemia. Nesta linha, o Brasil está aberto para o desenvolvimento de tecnologia de ponta e inovação, a exemplo da indústria 4.0, da inteligência artificial, nanotecnologia e da tecnologia 5G, com quaisquer parceiros que respeitem nossa soberania, prezem pela liberdade e pela proteção de dados.

No Brasil, apesar da crise mundial, a produção rural não parou. O homem do campo trabalhou como nunca, produziu, como sempre, alimentos para mais de 1 bilhão de pessoas.

O Brasil contribuiu para que o mundo continuasse alimentado.

Nossos caminhoneiros, marítimos, portuários e aeroviários mantiveram ativo todo o fluxo logístico para distribuição interna e exportação.

Nosso agronegócio continua pujante e, acima de tudo, possuindo e respeitando a melhor legislação ambiental do planeta.

Mesmo assim, somos vítimas de uma das mais brutais campanhas de desinformação sobre a Amazônia e o Pantanal.

A Amazônia brasileira é sabidamente riquíssima. Isso explica o apoio de instituições internacionais a essa campanha escorada em interesses escusos que se unem a associações brasileiras, aproveitadoras e impatrióticas, com o objetivo de prejudicar o governo e o próprio Brasil.

Somos líderes em conservação de florestas tropicais. Temos a matriz energética mais limpa e diversificada do mundo.

Mesmo sendo uma das 10 maiores economias do mundo, somos responsáveis por apenas 3% da emissão de carbono.

Garantimos a segurança alimentar a um sexto da população mundial, mesmo preservando 66% de nossa vegetação nativa e usando apenas 27% do nosso território para a pecuária e agricultura. Números que nenhum outro país possui.

O Brasil desponta como o maior produtor mundial de alimentos.

E, por isso, há tanto interesse em propagar desinformações sobre o nosso meio ambiente.

Estamos abertos para o mundo naquilo que melhor temos para oferecer, nossos produtos do campo. Nunca exportamos tanto. O mundo cada vez mais depende do Brasil para se alimentar.

Nossa floresta é úmida e não permite a propagação do fogo em seu interior. Os incêndios acontecem praticamente, nos mesmos lugares, no entorno leste da Floresta, onde o caboclo e o índio queimam seus roçados em busca de sua sobrevivência, em áreas já desmatadas.

Os focos criminosos são combatidos com rigor e determinação. Mantenho minha política de tolerância zero com o crime ambiental. Juntamente com o Congresso Nacional, buscamos a regularização fundiária, visando identificar os autores desses crimes.

Lembro que a Região Amazônica é maior que toda a Europa Ocidental. Daí a dificuldade em combater, não só os focos de incêndio, mas também a extração ilegal de madeira e a biopirataria. Por isso, estamos ampliando e aperfeiçoando o emprego de tecnologias e aprimorando as operações interagências, contando, inclusive, com a participação das Forças Armadas.

O nosso Pantanal, com área maior que muitos países europeus, assim como a Califórnia, sofre dos mesmos problemas. As grandes queimadas são consequências inevitáveis da alta temperatura local, somada ao acúmulo de massa orgânica em decomposição.

A nossa preocupação com o meio ambiente vai além das nossas florestas. Nosso Programa Nacional de Combate ao Lixo no Mar, um dos primeiros a serem lançados no mundo, cria uma estratégia para os nossos 8.500 quilômetros de costa.

Nessa linha, o Brasil se esforçou na COP25 em Madri para regulamentar os artigos do Acordo de Paris que permitiriam o estabelecimento efetivo do mercado de carbono internacional. Infelizmente, fomos vencidos pelo protecionismo.

Em 2019, o Brasil foi vítima de um criminoso derramamento de óleo venezuelano, vendido sem controle, acarretando severos danos ao meio ambiente e sérios prejuízos nas atividades de pesca e turismo.

O Brasil considera importante respeitar a liberdade de navegação estabelecida na Convenção das Nações Unidas sobre o Direito do Mar.

Entretanto, as regras de proteção ambiental devem ser respeitadas e os crimes devem ser apurados com agilidade, para que agressões como a ocorrida contra o Brasil não venham a atingir outros países.

Não é só na preservação ambiental que o país se destaca. No campo humanitário e dos direitos humanos, o Brasil vem sendo referência internacional pelo compromisso e pela dedicação no apoio prestado aos refugiados venezuelanos, que chegam ao Brasil a partir da fronteira no estado de Roraima.

A Operação Acolhida, encabeçada pelo Ministério da Defesa, recebeu quase 400 mil venezuelanos deslocados devido à grave crise político-econômica gerada pela ditadura bolivariana.

Com a participação de mais de 4 mil militares, a Força Tarefa Logística-Humanitária busca acolher, abrigar e interiorizar as famílias que chegam à fronteira.

Como um membro fundador da ONU, o Brasil está comprometido com os princípios basilares da Carta das Nações Unidas: paz e segurança internacional, cooperação entre as nações, respeito aos direitos humanos e às liberdades fundamentais de todos. Neste momento em que a organização completa 75 anos, temos a oportunidade de renovar nosso compromisso e fidelidade a esses ideais. A paz não pode estar dissociada da segurança.

A cooperação entre os povos não pode estar dissociada da liberdade. O Brasil tem os princípios da paz, cooperação e prevalência dos direitos humanos inscritos em sua própria Constituição, e tradicionalmente contribui, na prática, para a consecução desses objetivos.

O Brasil já participou de mais de 50 operações de paz e missões similares, tendo contribuído com mais de 55 mil militares, policiais e civis, com participação marcante em Suez, Angola, Timor Leste, Haiti, Líbano e Congo.

O Brasil teve duas militares premiadas pela ONU na Missão da Republica Centro-Africana pelo trabalho contra a violência sexual.

Seguimos comprometidos com a conclusão dos acordos comerciais firmados entre o MERCOSUL e a União Europeia e com a Associação Europeia de Livre Comércio. Esses acordos possuem importantes cláusulas que reforçam nossos compromissos com a proteção ambiental.

Em meu governo, o Brasil, finalmente, abandona uma tradição protecionista e passa a ter na abertura comercial a ferramenta indispensável de crescimento e transformação.

Reafirmo nosso apoio à reforma da Organização Mundial do Comércio que deve prover disciplinas adaptadas às novas realidades internacionais.

Estamos igualmente próximos do início do processo oficial de acessão do Brasil à OCDE. Por isso, já adotamos as práticas mundiais mais elevadas em todas as áreas, desde a regulação financeira até os domínios da segurança digital e da proteção ambiental.

No meu primeiro ano de governo, concluímos a reforma da previdência e, recentemente, apresentamos ao Congresso Nacional duas novas reformas: a do sistema tributário e a administrativa.

Novos marcos regulatórios em setores-chave, como o saneamento e o gás natural, também estão sendo implementados. Eles atrairão novos investimentos, estimularão a economia e gerarão renda e emprego.

O Brasil foi, em 2019, o quarto maior destino de investimentos diretos em todo o mundo. E, no primeiro semestre de 2020, apesar da pandemia, verificamos um aumento do ingresso de investimentos, em comparação com o mesmo período do ano passado. Isso comprova a confiança do mundo em nosso governo.

O Brasil tem trabalhado para, em coordenação com seus parceiros sul-atlânticos, revitalizar a Zona de Paz e Cooperação do Atlântico Sul.

O Brasil está preocupado e repudia o terrorismo em todo o mundo. 

Na América Latina, continuamos trabalhando pela preservação e promoção da ordem democrática como base de sustentação indispensável para o progresso econômico que desejamos.

A LIBERDADE É O BEM MAIOR DA HUMANIDADE.

Faço um apelo a toda a comunidade internacional pela liberdade religiosa e pelo combate à cristofobia.

Também quero reafirmar minha solidariedade e apoio ao povo do Líbano pelas recentes adversidades sofridas.

Cremos que o momento é propício para trabalharmos pela abertura de novos horizontes, muito mais otimistas para o futuro do Oriente Médio.

Os acordos de paz entre Israel e os Emirados Árabes Unidos, e entre Israel e o Bahrein, três países amigos do Brasil, com os quais ampliamos imensamente nossas relações durante o meu governo, constitui excelente notícia.

O Brasil saúda também o Plano de Paz e Prosperidade lançado pelo Presidente Donald Trump, com uma visão promissora para, após mais de sete décadas de esforços, retomar o caminho da tão desejada solução do conflito israelense-palestino.

A nova política do Brasil de aproximação simultânea a Israel e aos países árabes converge com essas iniciativas, que finalmente acendem uma luz de esperança para aquela região.

O Brasil é um país cristão e conservador e tem na família sua base.

Deus abençoe a todos!

E o meu muito obrigado!"

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quarta-feira, 2 de setembro de 2020

A aliança dos “antilavajatistas” com Bolsonaro

Os que temem e combatem a Lava-Jato, uma “santa aliança” de notórios políticos que vão da esquerda à direita, cunharam a expressão pejorativa de “lavajatistas” para deixar na defensiva os que defendem a luta contra a corrupção e o caráter democrático e histórico de acabar com a impunidade.


Logo, em consequência, eles são “antilavajatistas” uma estranha palavra, até difícil de pronunciar. Por oportunismo, atentam contra a democracia. É o que veremos abaixo.

A ação dos antilavajatistas em favor da impunidade vem ao encontro do intento de Bolsonaro de transformar a PF em polícia política, a PM em força de repressão política, o MPF em advocacia do executivo e, por último, a cereja do bolo, o acovardamento do STF. Se alcançar estes objetivos, já estaremos na ante-sala do totalitarismo. Isto já está acontecendo diante dos nossos olhos.

“O inimigo do meu inimigo é meu amigo”.  
(Estariam pensando assim os antilavajatistas, mesmo que o custo final seja a democracia?)

O tema central deste texto é a aliança objetiva de Bolsonaro com os antilavajatistas. Seja porque concordem com os seus objetivos e se alinhem a ele estrategicamente, ou, apenas, taticamente, para se safarem da justiça, a consequência é a mesma: estão ajudando Bolsonaro a atentar contra a democracia. Ele ainda não conseguiu apoio suficiente para isso; nem interno, nem internacional; se Trump perder a eleição presidencial esse projeto se inviabilizará definitivamente; se Trump ganhar, se fortalecerá.

Quem resiste a isso é a maioria democrática da sociedade brasileira, incluídos os “lavajatistas”, que estão na oposição a Bolsonaro sem meias palavras ou dubiedades.

O projeto totalitário de Bolsonaro tem como premissa anular a independência da Justiça. Se tivesse força para isso, fecharia o STF, como não se cansam de propor os bolsonaristas de raiz. Duas conquistas centrais da Constituição de 88 foram a autonomia da PF e o fortalecimento das prerrogativas do MPF. Bolsonaro está começando por aí. O seu objetivo de controlar a PF, e transformá-la em polícia política altamente qualificada está em andamento. Quanto ao MPF, deu o primeiro passo, ao indicar o sabujo Aras fora da lista tríplice. Óbvio, sofre fortes resistências a esses intentos dentro dessas instituições do Estado!

Mas tudo está sendo facilitado para Bolsonaro quando os antilavajatistas de todos os matizes políticos o apoiam em suas intervenções na PF e no MPF para liquidar com a Lava-Jato.

E, como brinde, ainda aplaudem as ações do “grupo dos três”, Dias Toffoli, Gilmar Mendes e Ricardo Levandowisky, no STF, contra a Lava-Jato!

Resultado, hoje, os antilavajatistas passaram a ser um trunfo de Bolsonaro no seu intento de controlar e acovardar a justiça para o seu projeto totalitário.

(Este é apenas o esboço de um texto maior ainda em preparação).

sábado, 29 de agosto de 2020

Sejam bem-vindos à oposição os eleitores democratas de Bolsonaro!

Não devemos, nem precisamos, cobrar dos eleitores de Bolsonaro, os decepcionados com o seu exercício da presidência, qualquer demonstração pública ou explícita de arrependimento. Eles não são leprosos nem pecadores.


Cada um tem a sua trajetória de envolvimento e de militância na política. E para muitos, diria, milhões, esse envolvimento não os impediu de votar em Bolsonaro; e isso foi por milhões de razões, tantas quanto são os próprios indivíduos.

Existem, basicamente, dois tipos de eleitores de Bolsonaro: (1) “os bolsonaristas de raiz” que pensam como ele, são de extrema-direita e o merecem; (2) os “democratas”, que votaram nele desejando uma alternância do poder, e para impedir que o PT voltasse ao governo.

Estes últimos são contra qualquer tipo de ditaduras e somente querem viver em um Estado Democrático de Direito; são tão democratas, portanto, quanto qualquer outro democrata. São provavelmente, no espectro político, de direita ou de centro, mas ser democrata não é monopólio da esquerda; aliás, existe na esquerda, os de extrema esquerda, que não são democratas.

Portanto, sendo hora de unir todos os democratas sejam eles de esquerda, de centro ou de direita, contra os intentos totalitários do Bolsonaro, devemos nos recebermos todos - os democratas - de braços abertos, e não ficarmos fazendo cobranças indevidas à maioria dos eleitores do Bolsonaro,  exatamente os democratas que estão passando à oposição! Isto apenas bloqueia e dificulta esse deslocamento político. 

Devemos recebê-los sem arrogância e sem hegemonismos para viabilizar a alternativa democrática que poderá ser vencedora em 2022, e retomar a construção do país mais justo e desenvolvido que todos nós desejamos.

quarta-feira, 26 de agosto de 2020

O PowerPoint do Dallagnol

O PowerPoint do Dallagnol. Recordando-o, em homenagem a um servidor público brilhante e íntegro. Sua culpa foi falar a verdade!

Dallagnol, por ter tido a coragem de mostrar o óbvio, e pelo seu papel competente como procurador-chefe da força-tarefa da Lava-Jato em Curitiba, está sendo perseguido. Mas no dia 25/08/20, terça-feira, o Conselho Superior do Ministério Público arquivou o processo contra ele, o que foi muito positivo.

A equipe de procuradores responsável pelo PowerPoint foi audaciosa. Colocou nele algumas obviedades, até ingênuas; se expuseram e pagaram um preço pessoal alto por isso. 

Os primeiros a saberem que tudo ali, essencialmente, são fatos, são os próprios envolvidos. Mas, claro, não poderia ter sido dito! Acusam aos procuradores de fazerem política, extrapolando os limites da legalidade (estranha essa acusação, não é?). Mas agiram, assumiram riscos e fizeram a diferença, pois ajudaram no fundamental: o esclarecimento de crimes.

O mais grave pecado do PowerPoint foi ter colocado o guizo no pescoço do gato. Mostrou Lula como o pivot de tudo. E, paradoxalmente, este foi o seu principal acerto!

quinta-feira, 20 de agosto de 2020

A estratégia dos rabos-presos contra a Lava-Jato

A Lava-jato, de certo, não está acima da lei. Foi cumprindo os exigentes requisitos do devido processo legal que alguns bandidos de colarinho branco, os mais prejudiciais à sociedade, foram condenados em várias instâncias.


Claro, a lava-Jato não está isenta de erros. Sobretudo, a sociedade precisa mover-se em apoio ao aperfeiçoamento dos procedimentos jurídico-legais de combate à corrupção e à impunidade para que ela continue a prestar a sua imensa contribuição.

Mas alguns querem líquidá-la! São os que por ela foram atingidos, particularmente, políticos e empresários poderosos, que viram-se flagrados em práticas gravemente prejudiciais ao país. No total, já tiveram que devolver bilhões de reais.

Acostumados a cometer crimes impunemente, reagem para invalidar e anular os processos responsáveis por sua desgraça. Voltam-se contra os agentes do Estado que conduziram os processos. Sua estratégia é desmoralizá-los usando a extensa rede subterrânea existente, com braços na justiça, para defender os interesses dos poderosos.

No nosso sistema jurídico as cadeias não foram destinadas a criminosos de colarinho branco. Mas a Lava-Jato nunca processou e condenou um negro, um pobre ou um favelado. Processou e condenou os mais poderosos pela primeira vez na história do Brasil, exatamente os envolvidos com a corrupção. Este foi um acinte insuportável, pois essas não são as regras do jogo!

Como ousam esses funcionários públicos, esses “juizecos”, levá-los às barras dos tribunais? Por isso, por ter tido a coragem de proferir sentenças condenatórias contra eles, Sergio Moro foi eleito como o inimigo principal.

Mas a bola da vez agora é o Deltan Dallagnol, o brilhante e íntegro procurador-chefe da força tarefa da Lava-Jato em Curitiba.

A questão fundamental, entretanto, para nós, cidadãos, é o profundo caráter democrático da Lava-Jato, pois tem sido com o rigor da lei, e dentro das premissas do Estado Democrático de Direito, que ela tem realizado o seu trabalho; ela está fazendo valer o Art. 5º da Constituição que, em seu caput, estabelece a igualdade de todos os cidadãos perante a lei. Quem é contra isso? Já os conhecemos, alguns a sociedade já sabe nomear. Infelizmente são muitos, e alguns são até juizes do STF. Mas para que o Brasil seja mais justo e desenvolvido não podemos mais conciliar com a corrupção e com a impunidade, que bloqueiam o próprio desenvolvimento de nossa democracia.

Ninguém tem bola de cristal, mas é previsível que esses criminosos serão derrotados, não apenas porque é necessário, mas porque já começaram a sê-lo com as suas condenações. Esta ofensiva atual da “santa aliança” dos rabos presos, uma exdrúxula coalisão com representantes de todos os matizes políticos, que vai da esquerda à direita, encontrou na Lava-Jato, e nos seus agentes executores, jovens PFs, procuradores e juízes, os seus inimigos principais. Mas nunca o Brasil deveu tanto a tão poucos! E não podemos ficar passivos enquanto os vemos serem perseguidos.

Os que se opõem à Lava-Jato agora são os mesmos de antes, os únicos capazes de pagar os mais caros advogados, pois o fazem exatamente com o dinheiro da roubalheira.

Mas esses criminosos estão cada vez mais isolados em virtude do apoio social que a Lava-Jato recebe. E isto não mudará, embora estejam vivendo uma fase de entusiasmo fugaz, ao receberem, como poderoso aliado, recentemente, a Bolsonaro, o presidente da república, e a Aras, o atual Procurador Geral da República. Este é outro capítulo de nossa tragédia.

Mas isto também passará!

segunda-feira, 17 de agosto de 2020

Posicionamento sobre o aborto

Todos os que defendem a vida devem ser a favor do aborto legal da menina de 10 anos estuprada, e contra todo fundamentalismo religioso intolerante, que sempre esteve envolvido, aliás, ao longo da história, com bárbaros crimes contra a humanidade.


segunda-feira, 27 de julho de 2020

O capitão cloroquina


Abaixo, a curva das médias móveis de mortes diárias no Brasil. Um longo patamar persistente acima das 1.000 mortes. Uma curva única, singular, brasileira, sem igual.

Até os eleitores mais esclarecidos do capitão cloroquina já se renderam ao fato de que uma das causas mais importantes para explicar a persistência desse patamar é a influência negativa do presidente e do Ministério da Saúde, que se posicionam contra o isolamento e afastamento social, a única estratégia preventiva efetiva para diminuir o número de casos e de óbitos causados pelo COVID-19 e combater a pandemia.

(Gráfico trazido de Jayme Serva)


sexta-feira, 24 de julho de 2020

Reflexões sobre a felicidade

Felicidade é um sentimento de gostar da vida na perspectiva de quem vive o momento presente olhando com esperança para o futuro.


No limite, se diz que um indivíduo totalmente “sem perspectiva” se sente profundamente infeliz, e por vezes não deseja mais viver.

Felicidade refere-se, sem dúvida, aos sentimentos vinculados ao prazer de viver.

Mas o momento presente, no qual se está vivendo, pode não estar sendo prazeroso: a pessoa pode estar vivendo um momento difícil; pode estar doente; pode ter tido um acidente; pode ter se envolvido em um conflito; pode ter tido perdas irreparáveis de pessoas queridas, estar desempregada e com problemas financeiros. Este momento, entretanto, pode ser, existencialmente, como um instante, e os sentimentos e sofrimentos que ele envolve, mesmo que sejam graves, não sejam breves, ou por vezes pareçam que não terminarão nunca, provavelmente passarão, pois a vida quer e precisa viver. Sobretudo, não necessariamente determinam um sentimento de “infelicidade”.

Exatamente por isso, felicidade refere-se, também, aos sentimentos que expressam os significados maiores - ou valores estratégicos - que cada um atribui à própria vida.

Esses significados, descritos por crenças, sonhos, projetos, valores e objetivos fundamentais, dão aos indivíduos uma visão em perspectiva da própria vida revigorada pela esperança em um futuro melhor.

Como esses significados orientam suas decisões e ações, eles influenciam fortemente os seus sentimentos de felicidade presente ou futura, pois determinam a forma como cada um enfrenta as suas dificuldades presentes e tenta construir o seu futuro.

sexta-feira, 17 de julho de 2020

Aniversário em tempos de pandemia

Tendo recebido dos amigos virtuais no facebook centenas de felicitações gentis pela passagem de meu aniversário no dia 16 de julho, sensibilizado, postei o meu agradecimento:


Queridos amigos e amigas, quero agradecer a todos os que ajudaram a tornar mais feliz a passagem do meu aniversário. Se o Facebook já não fosse esse instrumento fantástico de aproximar as pessoas distantes para trocar opiniões sobre tudo, ele é, também, um espaço de afetividade.

Já vivemos em um novo mundo de trabalho, estudo, político, cultural, econômico e de relações afetivas à distância. Claro, ele jamais substituirá os abraços, o toque e os beijos de que tanto precisamos, mas a pandemia fez chegar mais rápido o “novo normal” para o qual já caminhávamos.

Certamente, aos 75, com as minhas comorbidades naturais, embora eu tenha sido agraciado com o temperamento de um esperançoso de luta, confesso que depois de passados dois meses de isolamento e afastamento social compreendi que o sentimento que me invadiu, de saber que se o coronavírus me pegasse provavelmente me levaria, não me fez bem.

Percebi-me como que navegando sem rumo num mar tempestuoso. Pois, se a vida quer viver, não nos compraz apenas preservá-la para chegar ao dia seguinte; precisamos, também, dos objetivos maiores que lhe dão significado!

Mas, se não podemos viver como antes, temos que saber transitar mais rápido para esse novo normal. Pessoas de minha idade, e até os mais novos, diria, mesmo, a própria juventude, terão que manter o isolamento e o afastamento social sabe-se lá até quando. Não fico sonhando com a vacina, pois acho que não devemos abaixar a guarda.

Isolamento, máscara, álcool gel e distanciamento vieram para ficar, e não se sabe até quando. Com os novos cuidados teremos que voltar a nos sentir vivendo uma vida de qualidade.

Eu, com minha idade, aposentado, agora tento seguir os ensinamentos de minha filha, Andreia Torres, nutricionista, 45, que há muito tempo trabalha com uma filosofia de “home office”. Ela diz: - Começo a trabalhar seguindo uma rotina. Todo dia eu me arrumo, me maquio e “saio” pra trabalhar. Sigo o protocolo, tantas horas de trabalho pela manhã, pela tarde, hora do almoço e paro à mesma hora todo dia. Faz isso há mais de uma dezena de anos. Claro, tem a hora da caminhada, do exercício físico e da meditação. É casada. E lá vai ela, produtiva e cheia de projetos. Escreve livros, dá consultorias, cursos on-line, atende clientes e participa de Conferências.

Comecei a me sentir melhor. Retomei as atividades físicas, saio pra caminhar, cumpro os protocolos de distanciamento e voltei a estudar e escrever. Claro, cada um tem o seu projeto, adequado à sua história de vida e preferências. E parei de me preocupar com o sentimento da morte iminente, pois, afinal, viver sempre foi uma atividade de riscos! E, para facilitar as coisas, o Bolsonaro nas duas últimas semanas não tem nos assustado com as suas ameaças de golpe!

Um grande abraço a todos vocês, os meus queridos amigos do Facebook.

segunda-feira, 13 de julho de 2020

Sobre intolerância & intolerantes

Os que nos encontramos nas redes sociais frequentemente nos deparamos com o fenômeno da intolerância.


Cada um de nós tem o direito legítimo de criar um círculo inteligente, afetivo e agradável de amigos que nos ajude a conquistar uma maior qualidade de vida, não importa como a definamos pessoalmente.

Entretanto, um grupo inteligente, afetivo e agradável não é, nem pode ser, de pessoas que pensem igual. O que precisamos combater é a intolerância, ou incapacidade de conviver com os diferentes. Este é um exercício que todos devemos praticar diariamente.

Como identificar intolerantes? Dou abaixo uma pequena lista de características sem a preocupação de ser exaustivo; vocês se lembrarão de outras:

(1) não sustentam opiniões baseadas em argumentos;
(2) ofendem e desrespeitam, muitas vezes usando palavras de baixo calão, aos que proferem opiniões de que discordem;
(3) são propagadores de “posts” fakes produzidos por centrais politicas de desinformação a serviço de suas “facções”;
(4) frequentemente gostam de redigir seus posts em letra maiúscula, como se estivessem “berrando”, falando alto ou impondo seus pontos de vista; excluo apenas, dentre os que redijam assim, os que tenham necessidades visuais especiais;
(4) não conseguem conviver respeitosamente com a divergência, quando se defrontam com textos diametralmente opostos às suas opiniões;
(5) os que se desesperam - e se exasperam - quando vêm que não conseguem “convencer” aos outros da sabedoria, inteligência e lógica “incontestável” de suas opiniões; esquecem que as pessoas não são convencidas, mas “convergem”, ao longo do tempo, em opiniões, a partir de suas próprias experiências de vida, da confiança que tenham no interlocutor, e de suas próprias referências intelectuais, políticas e ideológicas;
(6) os que trabalham com critérios de verdade “absolutos” e não relativos, esquecendo-se que a convergência de opiniões depende da aceitação, com base lógica, de um patamar comum de informações e de valores; muitos, como se sentem o “centro do universo”, consideram que atributos subjetivos, tais como o bom, o bonito, o justo, o moral, o ético, etc., só podem ser medidos pelo seu esquadro.

Essa lista poderia alongar-se; posto-a aqui apenas para abrir a discussão; certamente, devo ter deixado de fora outros aspectos muito importantes.

sábado, 27 de junho de 2020

A nova estação democracia: 2022.

Caminhamos para um novo contexto político, o que predominará em 2022.


Bolsonaro já revelou-se perante os democratas, sejam os que votaram ou os que não votaram nele. Revelou-se como uma excrescência de uma sociedade politicamente enferma, alguém que tendo sido eleito democraticamente, em eleições limpas, quer governar como ditador e instaurar um governo totalitário. Algo impensável até há pouco tempo.

Existe um processo político em andamento. Ao final, somente ficarão com Bolsonaro os “bolsonaristas de raiz”, os que concordam com ele política e ideologicamente e o merecem; estes o seguem, decantados ao seu pequeno número, nas ruas, querendo fechar o Congresso e o STF, nas portas dos quartéis e sem máscaras. Não ultrapassam mais do que 20% dos seus próprios eleitores.

Dele, do que já sabemos e testemunhamos de suas próprias declarações e ações exaustivamente documentadas, pode-se falar de sua inabilitação mental e intelectual para o cargo. Não gosta de trabalhar, passa o seu tempo tentando convencer os militares a dar um golpe, e permanece com o mesmo comportamento radical de extrema direita que tinha como deputado, cuidando principalmente dos seus interesses familiares, como fez por 28 anos.

O melhor e mais rápido para o Brasil enfrentar a grave situação sanitária e econômica seria que a sociedade encontrasse os meios jurídicos e constitucionais para interdita-lo, ou que renunciasse, para que o Brasil pudesse voltar a trabalhar em calma, promovesse a sua reorganização, e recuperasse a paz, a confiança e o respeito por um presidente à altura do cargo.

Como consequência, dos sustos institucionais que provoca diariamente, está fazendo gestar uma frente de oposição democrática com cidadãos de todos os matizes políticos, inclusive de ex-eleitores, para barrar o projeto totalitário com que sonha governar. Os democratas, responsavelmente, apenas estão aguardando o momento oportuno para mostrar, aos milhões, nas ruas, as suas faces. E certamente, como sempre foi, elas serão verdes e amarelas!

Essa maioria esmagadora de democratas civis e militares barrará os seus intentos totalitários. Aliás, já barrou. Doravante, já mais conhecedores dos seus desvios comportamentais, que causam imenso desconforto e prejuízos ao país, tudo mostra que caminharemos, embora aos sobressaltos, dentro dos limites da institucionalidade democrática.

O seu afastamento por impeachment entrou na pauta, mas, diante da grave crise sanitária, econômica e de desemprego, além de difícil viabilização, traz o risco de não deixar pedra sobre pedra. Mais provável é que essa crise somente seja resolvida pelo voto em 2022. Esta, provavelmente, é a melhor opção para o país.

Voltando a tratar do contexto que acho mais provável para 2022. Em primeiro lugar, é necessário recordar que a sociedade brasileira desejava, em 2018, uma alternância do poder e impedir que o PT voltasse ao governo. Por isso Haddad perdeu. O grande feito eleitoral de Bolsonaro não foi ter vencido o Haddad no 2º turno, mas ter chegado ao 2º turno por uma conjuntura que não se repetirá mais em 2022. Sei que é sofrido para os que tenham votado no Haddad, por julga-lo a melhor opção, uma resistência quase psicológica, reconhecer isto.

Para ficar mais claro, Haddad teria perdido a eleição para qualquer outro concorrente no 2º turno, fosse o Ciro, o Alckmin, a Marina ou o Amoedo. A sociedade, majoritariamente, se uniria e teria votado contra o PT. O azar da história (para o povo brasileiro) foi que Haddad enfrentou o Bolsonaro, e perdeu, repito, como perderia para qualquer outro.

Os que já não votaram no PT em 2018 continuarão não votando. O diferente é que a sociedade, da mesma forma, se unirá em 2022 contra Bolsonaro.

Em termos de probabilidade, se não se repetir a tragédia de 2018 - de que se enfrentem novamente o petismo e o bolsonarismo no 2º turno - o presidente da república que será eleito em 2022 nem será do PT nem será Bolsonaro.

Qual é, então, o maior desafio político da democracia brasileira para 2022? O de produzir um 2º turno eleitoral nas eleições presidenciais em que pelo menos um dos candidatos não seja dessa trágica polarização. Se esse candidato estiver lá, no 2º turno, será o novo presidente da república, pois a sociedade se unirá, majoritariamente, em torno do seu nome, pra promover a renovação política indispensável contra o populismo bolsonarista ou petista.

E o melhor, em paz e em plena democracia!

terça-feira, 2 de junho de 2020

O que é ser Democrata?

Democratas são os cidadãos:

  1. que repudiam todo tipo de ditaduras, sejam elas de direita ou de esquerda;
  2. que somente queiram viver em um Estado Democrático de Direito.
Ser democrata não é monopólio dos que se situam à direita ou à esquerda do espectro político, e não são democratas os que desprezem as condições acima.

Como corolário, define-se como não-democratas, de extrema direita ou de extrema esquerda, os cidadãos que defendam regimes ditatoriais e que desprezem viver fora das premissas do Estado Democrático de Direito.

Os cientistas políticos e sociais talvez prefiram definições mais acuradas e completas do que seja ser democrata. Mas não tem jeito, se não satisfizerem às duas condições acima, não estarão definindo o que seja ser democrata. As pessoas, ao se pensarem como democratas, talvez não digam para si mesmas: “eu sou democrata porque repudio todo tipo de ditaduras e só quero viver em um estado democrático de direito”. Mas não tem jeito, se defenderem ditaduras e não tiverem apreço por viver em um Estado Democrático de Direito, não são democratas.

Vejamos outra distinção importante nos nossos dias para o debate sobre o que seja ser democrata: a do ser civil ou militar.

100% dos brasileiros são civis ou são militares. Quem é civil não é militar, e vice versa. Na figura abaixo, a área à direita da linha branca representa os militares; à esquerda, os civis. A percentagem de militares é bem menor do que a de civis; observe que na figura a área que representa a população de militares, para fins de melhor visualização, está superdimensionada.


Democratas são o subconjunto dos brasileiros, civis ou militares, representados em azul; são a maioria. Os não-democratas, civis ou militares, representados em preto, completam os 100% dos brasileiros; são a minoria. Muito mais pode e deve ser dito sobre o assunto. Mas essa ilustração gráfica, por ser lógica e intuitiva, aqui está registrada para abrir o debate.

Naturalmente, outras distinções são importantes para levar adiante o entendimento sobre o que seja ser democrata. Acima, utilizamos a distinção esquerda/direita. Portanto, essa caracterização clássica exige, também, a consideração de um centro democrático.

Em uma outra vertente, alguns apontam a inadequação dos conceitos esquerda e direita políticas para pensar a realidade politica, econômica e social na atual etapa do desenvolvimento científico e tecnológico da humanidade. Provavelmente estejamos às vésperas de surgir uma nova ciência política, e sociologia, propiciada pela abundante existência de informações e de recursos computacionais para tratá-las. Isto daria surgimento a uma nova sociedade democrática organizada em redes e novas relações sociais, com a predominância do estudo e do trabalho à distância. Fique o registro respeitoso. Como isso mudará o nosso conceito de democracia?

Outras distinções, ainda, para caracterizar os democratas, podem e devem ser feitas por classes ou camadas sociais, por nível de renda, regionais, etc. Todas, desde que tenham base empírica, são necessárias para entender o que são, onde estão e como pensam os democratas no Brasil. Esta é uma tarefa para os nossos cientistas sociais.

Uma importante distinção nos dias de hoje volta-se para entender o eleitor de Bolsonaro. Para os fins desta análise eles são, basicamente, de dois tipos: 
  • os bolsonaristas de raiz, de extrema-direita, como ele, e que são nostálgicos da ditadura militar; estão entre 10 e 20 milhões de brasileiros;
  • os democratas que nele votaram para promover a alternância do poder e impedir que o PT voltasse ao governo. São a grande maioria dos seus eleitores, e estão entre 30 e 40 milhões de brasileiros. 
Muitos que não votaram em Bolsonaro costumam recusar o fato de que milhões de seus eleitores sejam democratas; mas estão errados. Os extremos praticam na política o “nós contra eles”. Colocam-se como referência do mundo e atribuem-se a si mesmos o monopólio do que seja o bom, o bonito, o moral, o ético e as boas qualidades. Claro, para quem pense assim, o adversário só poderá ser a representação, mesmo que apenas imaginária, e fantasmagórica, do que julgam ser as piores qualidades.

Valho-me, para ilustrar, do pertinente comentário do ex procurador da Lava-Jato Dr. Carlos Fernando dos Santos Lima:
”Para a extrema direita, o que está à esquerda é comunista. Para a extrema esquerda, o que está à direita é fascista. É preciso deixá-los gritando sozinhos...”

Claro, a realidade é muito mais complexa, e entre os extremos existem muitos matizes e diversidade. A que nos interessa neste texto são as várias tonalidades com que se manifesta o pensamento político democrático, e uni-los, para salvar e fortalecer a própria democracia.

segunda-feira, 1 de junho de 2020

Nós, os democratas, SOMOS MUITOS!

Os democratas de todos os matizes políticos - de direita, de centro e de esquerda - repudiam todo tipo de ditaduras e só querem viver em um Estado Democrático de Direito.

Nós somos muitos, milhões, nada menos do que a esmagadora maioria dos brasileiros!

Somos pacíficos, amamos a liberdade e não queremos armas para defendê-la ou para impor a nossa vontade.

Defendemos o diálogo, a tolerância e não queremos impor as nossas verdades.

Com o manifesto “Somos muitos” mostramos a nossa cara!


Para aderir acesse: www.movimentoestamosjuntos.org

Torcidas organizadas não representam os democratas!

Bolsonaro está perdendo o embate para os que clamam por democracia, repudiam todo tipo de ditaduras e só querem viver em um Estado Democrático de Direito.

Algumas razões:

(1) por seus próprios erros, ele está perdendo milhões de eleitores; as pesquisas mostram isso;

(2) a divulgação do vídeo da reunião ministerial de 22/04/20 foi um divisor de águas, mostrando, claramente, a sua inabilitação para o cargo;

(3) as manifestações de rua de que participa e incentiva têm um número cada vez menor de participantes, estão ficando ridículas; em que pese sejam frequentes, elas são apenas de militantes radicais, que apoiam uma ditadura militar, e o fechamento do Congresso e do STF; não são expontâneas e são financiadas, como as dos 30 nazistas, com suas tochas, em frente ao STF, as em frente aos quartéis, e as do último domingo (31/05/20), na Av. Paulista, no Rio e em Brasília;

(4) estão na defensiva e aterrorizados devido aos processos judiciais em que estão envolvidos, que terão desdobramentos importantes no STF;

(6) as FFAA não estão dispostas a qualquer aventura autoritária, muito menos com Bolsonaro, pois sabem, melhor que os civis, que ele é desqualificado e trapalhão; por isso, não goza de respeito; sobretudo, porque estão comprometidas com o Estado de Direito;

(7) os democratas começaram a unir-se em movimentos que se desdobrarão no momento oportuno com manifestações pacíficas de milhões na rua: vide o manifesto dos juristas, “Basta”, o movimento amplo representado pelo “Somos Muitos”, o “somos 70%”, etc.

Se existe algo que levará argumentos pro projeto totalitário do Bolsonaro é a gestação de um clima de conflagração nas principais capitais, com quebra-quebra, e até com mortes providenciais.

O mais importante é que só derrotaremos o pensamento dos que querem uma ditadura, pacificamente, com milhões de democratas nas ruas. Eles querem a volta a um regime totalitário, sustentado por milícias, como na Venezuela, com restrições às liberdades, repressão política, cerceamento das liberdades de pensamento, de opinião e de organização política.

Somente manifestações pacíficas e bem organizadas terão o condão de barrar o golpe que Bolsonaro quer dar. Nelas, se aparecerem milícias de qualquer natureza, sejam bolsonaristas ou de torcidas organizadas violentas, terão que ficar “pianinho” diante do caráter cívico que terão.

Definitivamente, não temos, em nada, que agradecer a esses “revolucionários”, que somente estão servindo para deflagrar a violência desejada pelos que já estão com as armas nas mãos!


Sobretudo, não podemos cair na armadilha e na provocação criadas por essas manifestações estimuladas pelo presidente Bolsonaro e pelos seus apoiadores radicais de extrema-direita!

Não devemos nos deixar levar nem nos confundir com a sensação fugaz, mas ilusória, de avaliar como positivos os confrontos que se verificaram no domingo, 31/05, na avenida Paulista! Isto equivaleria a entregar o futuro do projeto democrático, e o nosso futuro, às “revolucionárias torcidas organizadas” e aos seus violentos e infiltrados militantes.

O clima está tenso, é verdade! Mas não vamos perder a calma, não é?

Juristas dizem BASTA a Bolsonaro!

Um grupo de juristas e advogados se organizou para lançar neste domingo (31/5) o manifesto “Basta” contra ataques do presidente Jair Bolsonaro às instituições.

O documento já tem mais de 670 assinaturas e conta com nomes de peso, como Antonio Claudio Mariz de Oliveira, Dalmo Dallari, Celso Lafer, Marcos da Costa, Mario Sergio Duarte Garcia, Pedro Gordilho, Sebastião Tojal e Cláudio Lembo. Também assinam os textos os ex-ministros da Justiça José Carlos Dias, José Gregori e José Eduardo Cardozo.

O texto afirma que “o Brasil, suas instituições, seu povo não podem continuar a ser agredidos por alguém que, ungido democraticamente ao cargo de presidente da República, exerce o nobre mandato que lhe foi conferido para arruinar com os alicerces de nosso sistema democrático, atentando, a um só tempo, contra os Poderes Legislativo e Judiciário, contra o Estado de Direito, contra a saúde dos brasileiros, agindo despudoradamente, à luz do dia, incapaz de demonstrar qualquer espírito cívico ou de compaixão para com o sofrimento de tantos”.

O manifesto aponta crimes de responsabilidade e afirma que o país “é jogado ao precipício de uma crise política quando já imerso no abismo de uma pandemia que encontra no Brasil seu ambiente mais favorável, mercê de uma ação genocida do presidente da República”.

O texto afirma ainda que os juristas que assinaram o documento não vão se omitir em cobrar responsabilidade de todos que pactuam com essa situação.

Íntegra do Manifesto (*):


BASTA! 

“Menos conhecido é o paradoxo da tolerância: a tolerância ilimitada pode levar ao desaparecimento da tolerância. Se estendermos a tolerância ilimitada até àqueles que são intolerantes; se não estivermos preparados para defender uma sociedade tolerante contra os ataques dos intolerantes, o resultado será a destruição dos tolerantes e, com eles, da tolerância...”
KARL POPPER

Basta!

O Brasil, suas instituições, seu povo não podem continuar a ser agredidos por alguém que, ungido democraticamente ao cargo de presidente da República, exerce o nobre mandato que lhe foi conferido para arruinar com os alicerces de nosso sistema democrático, atentando, a um só tempo, contra os Poderes Legislativo e Judiciário, contra o Estado de Direito, contra a saúde dos brasileiros, agindo despudoradamente, à luz do dia, incapaz de demonstrar qualquer espírito cívico ou de compaixão para com o sofrimento de tantos.


Basta!

A Constituição Federal diz expressamente que são crimes de responsabilidade os atos do presidente da República que atentem contra o livre exercício do Poder Legislativo, do Poder Judiciário, do Ministério Público e dos Poderes constitucionais das unidades da Federação e contra o cumprimento das leis e das decisões judiciais (artigo 85, incisos II e VII).

Pois bem, o presidente da República faz de sua rotina um recorrente ataque aos Poderes da República, afronta-os sistematicamente. Agride de todas as formas os Poderes constitucionais das unidades da Federação, empenhados todos em salvar vidas. Descumpre leis e decisões judiciais diuturnamente porque, afinal, se intitula a própria Constituição. O país é jogado ao precipício de uma crise política quando já imerso no abismo de uma pandemia que encontra no Brasil seu ambiente mais favorável, mercê de uma ação genocida do presidente da República.

Basta!

Nós profissionais do direito, dos mais diferentes matizes políticos e ideológicos, os que vivem a primavera de suas carreiras, os que chegam ao outono de suas vidas profissionais, todos nós temos em comum a crença de que viver sob a égide do Direito é uma conquista civilizatória. Todos nós temos a firme convicção de que o Direito só tem sentido quando for promotor da justiça. Todos nós acreditamos que é preciso dar um BASTA a esta noite de terror com que se está pretendendo cobrir este país.

Não nos omitiremos. E temos a certeza de que os Poderes da República não se ausentarão.

Cobraremos a responsabilidade de todos os que pactuam com essa situação, na forma da lei e do direito, sejam meios de comunicação, financiadores, provedores de redes sociais. Ideias contrárias ao Estado e ao Direito não podem mais ser aceitas. Sejamos intolerantes com os intolerantes!

Imagem do manifesto:


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quinta-feira, 28 de maio de 2020

Bolsonaro: delírio ou irresponsabilidade?

Lá vai Bolsonaro descendo a ladeira em aprovação e credibilidade. As pesquisas DataFolha publicadas nos dias 27, 28, 29, 30, 31 de maio e 1 de junho de 2020 mostram isto com clareza. Você poderá encontra-las no pé da página deste texto.

A menos de um ano e meio de exercício do mandato presidencial, não são as críticas da oposição a razão de suas dificuldades, mas as suas decisões, ações e palavras; esse comportamento, fartamente documentado, passou a suscitar até sérias dúvidas quanto à sua inabilitação para o cargo. 


O vídeo da reunião ministerial do dia 22/04/20 foi um divisor de águas, pois mostrou um presidente sem compostura, o que foi repudiado por 76% (*) da sociedade. Nele, com toda a clareza, Bolsonaro sintetizou a sua filosofia:

“Armar o povo - em nome da liberdade - contra o comunismo”.

Proclamou - e nos ameaçou -, assim, com a fina-flor do seu pensamento, com o objetivo de implantar um Estado totalitário e miliciano, de tipo venezuelano, contra um inimigo fantasmagórico.

Não importa que esse inimigo não seja real, pois já acabou a guerra fria; afinal, ainda não existem alguns partidos no Brasil que têm o nome "comunista" em sua sigla? Pouco importa que se saiba que sua existência seja uma homenagem à democracia e à liberdade de organização e pensamento consagrada pela Constituição de 1988; ou, mesmo, que não sejam aspirantes ao poder.  Bolsonaro, se vive no mundo real, sabe disso, mas o elevou ao grau de perigo iminente! Seria esse inimigo fantasmagórico necessário para unir e justificar as suas "tropas" de milicianos armados contra o mal? Esta história mal contada, entretanto, bate inteiramente com as suas posições mais do que conhecidas e documentadas de defensor da ditadura militar, da tortura e da eliminação de comunistas; e os "bolsonaristas de raiz" (**) pensam como ele. Mas são poucos e barulhentos.

Se Bolsonaro pretende lutar contra o risco de uma ditadura "comunista" por que não chama os democratas? Mas não, ele chama o apoio de correntes políticas radicais que têm como objetivo fechar o Congresso e o STF. Alguma coisa não bate, pois estas instituições são os símbolos maiores das liberdades democráticas; e, sem esses poderes rompem-se todas as premissas do Estado Democrático de Direito. E note-se, o que é muito importante, jamais abriu um debate democrático com a sociedade visando explicitar propostas em que críticas legítimas aos poderes legislativo e judiciário pudessem consubstanciar um conjunto de reformas para aperfeiçoa-los.

Dado que o seu pensamento contém uma lógica arrevesada, mais uma vez é lícito perguntar-se se a obscuridade de sua formulação é fruto de dissimulação estratégica ou de delírio. Cresce, portanto, o temor por sua inabilitação. Mas como não o levar a sério se suas decisões afetam a vida de milhões de brasileiros? Delírio ou racionalidade?

A maioria dos eleitores de Bolsonaro, os democratas que nele votaram para promover a alternância no poder e impedir que o PT voltasse ao governo, decepcionados, vêm que o presidente começou a trair os compromissos éticos de sua campanha. Este desvio de comportamento, e de discurso, já teve como consequência a saída do juiz Sergio Moro do governo porque não concordou com a intervenção na PF para proteger o seu clã, o que levou um imenso contingente de seus apoiadores a passar para a oposição. Agora o seu objetivo é transforma-la em polícia política na sua concepção miliciana de Estado. Conseguirá? Sabe-se que haverá muita resistência, porque a PF é uma instituição do Estado com elevado grau de autonomia, o que é essencial para o combate à corrupção.

Tudo isso já estava antecipado quando Bolsonaro fez um "acordão" com Maia e Toffoli para retirar o COAF do ministério da justiça, fragilizar o pacote anticrime apresentado por Moro, acabar com a prisão em 2ª instancia e criar o juiz de garantias. Mal sabiam os presidentes da Câmara e do STF que estavam ajudando a chocar o ovo da serpente! Este desvio da pauta ética exaustivamente proclamada culminou, agora, com a incorporação do Centrão ao governo e com a adesão ao toma-lá-dá-cá; claro, o Centrão cobra por antecipação; por isso o presidente já lhes entregou fundos públicos bilionários.

Todos estes fatos demonstram que Bolsonaro abandonou a pauta ética; o próprio juiz Sergio Moro declarou nestes dias que jamais o presidente esteve empenhado na luta contra a corrupção. O presidente comporta-se, agora, como um fugitivo da polícia e passou a dormir aterrorizado com o medo do seu afastamento por interdição (inabilitação) ou por impeachment (crime de responsabilidade). Tudo isso é lamentável! Inabilitação ou irresponsabilidade?

A pandemia se agrava! O presidente, somando-se ao coronavírus, maximiza o número de mortes. E coloca-se contra a ciência, ao influir junto aos seus eleitores para que descumpram o isolamento social; e obrigou o ministro interino da saúde Pazuello - após a demissão de Mandetta e Teich - a recomendar um medicamento condenado pelas autoridades de saúde. Por isso, a agonia será mais prolongada e se agravará a tragédia!

Além de ter perdido a oportunidade de unir o país em nome do valor da vida, como fizeram os demais chefes de Estado, divide o país e não demonstra qualquer empatia para com os doentes infectados e com as famílias dos já mais de 26.000 mortos. Psicopatia?

Em consequência, dificilmente se reelegerá em 2022, pois a maioria democrática - civis e militares - se unirá contra ele, tal como ocorreu com o PT em 2018. Bolsonaro, sabe disso; por isso, porque sabe contar votos, quer dar o golpe antes para estender o seu mandato.

Mas os militares conhecem a Bolsonaro melhor do que os civis. Não o seguirão em qualquer aventura contra a democracia, muito menos em seus delírios e irresponsabilidades.


Bolsonaro busca todos os pretextos para criar uma crise institucional, como está fazendo agora, ao mobilizar os seus radicais contra a investigação das Fake News pela PF, o que atinge em cheio tanto o “ministério do ódio” quanto a alguns dos seus mais íntimos seguidores e financiadores. Mas, quanto mais radicalizar, mais oposição e resistência despertará e mais estará próximo do seu limite e do seu fim. Provavelmente fracassará, por duas razões: porque não conseguirá dar o golpe; e porque todos esses erros, inclusive sua inabilitação, mais cedo ou mais tarde, lhe cairão no colo.

Em síntese, Bolsonaro não conseguirá o seu intento de promover um retrocesso democrático porque não contará com apoio. Quem o parará? A maioria dos brasileiros, que são democratas: os civis e militares que repudiam todo tipo de ditadura e só querem viver em um Estado Democrático de Direito!

______
(*) Pesquisa DataFolha publicada em 27/05/2020:

Observe que a soma dos que consideraram as palavras do presidente Bolsonaro "Muito inadequadas" (61%) com os que consideraram "Um pouco inadequadas" (15%) é igual a 76%.




(**) Bolsonaro tem dois tipos de eleitores:
(1) os bolsonaristas de raiz, de extrema-direita, como ele, e que são nostálgicos da ditadura militar; estão entre 10 e 20 milhões de brasileiros; 
(2) os democratas que nele votaram para promover a alternância do poder e impedir que o PT voltasse ao governo. São a grande maioria dos seus eleitores, e estão entre 30 e 40 milhões de brasileiros.

Muitos que não votaram em Bolsonaro costumam recusar o fato de que milhões de eleitores de Bolsonaro sejam democratas; mas estão errados.

Por isso, para os fins dessa análise, democratas são os cidadãos que:
1. repudiam todo tipo de ditaduras, sejam elas de direita ou de esquerda; 
2. somente querem viver em um Estado Democrático de Direito.
Ser democrata não é monopólio dos que se situam à direita ou à esquerda do espectro político, e não são democratas os que desprezem as condições acima.

Como corolário, define-se como não-democratas, e de extrema-direita ou de extrema-esquerda, os que defendam regimes ditatoriais e que desprezem viver fora das premissas do Estado Democrático de Direito.


Da mesma pesquisa DataFolha, que corresponde a uma coleta telefônica de dados nos dias 25 e 26 de maio de 2020. O resultado dessa pesquisa foi publicado nos dias 27, 28, 29, 30 e 31 de maio e 1 de junho de 2020. Abaixo são apresentados alguns gráficos relevantes à argumentação desenvolvida no texto:

Pesquisa DataFolha publicada em 27/05/20 - lockdown e isolamento social

Pesquisa DataFolha publicada em 28/05/20 - avaliação do governo Bolsonaro

Pesquisa DataFolha publicada em 28/05/2020


Pesquisa DataFolha dia 29/05/20 - Avaliação do governo na pandemia

Pesquisa DataFolha publicada em 29/05/2020





Pesquisa Datafolha publicada em 30/05/20 - Negociação de cargos




Pesquisa DataFolha publicada em 31/05/2020 - Armamento da população

“Armar o povo - em nome da liberdade - contra o comunismo”. Declaração de Bolsonaro em 22/04/20.  O povo concorda? Vejamos o que diz a pesquisa:




domingo, 24 de maio de 2020

O valor fundamental da vida

O ser humano desenvolveu ao longo de milênios a ideia de que vive num ambiente que está separado dele e à sua volta; e de que, como centro do universo, a natureza estivesse apenas a seu serviço.

Na verdade, os humanos fazem parte do ambiente; dele surgem, o integram, nele interagem e o modificam. Como todos os demais seres vivos, animais ou plantas, surgiram da mesma natureza, e estão submetidos às mesmas leis naturais.


Em todo processo ocorrido na natureza ou na sociedade as forças naturais e as forças sociais interagem, exatamente porque pertencem ao mesmo ambiente.

As consequências das interações entre as forças sociais e naturais, podem ser positivas e benéficas, como, p.ex., quando construímos pontes, hospitais, aviões, celulares, computadores, etc. 

Mas essas consequências nem sempre são na direção desejada; por isso, precisamos sempre estar atentos aos impactos ambientais ao usarmos o gênio humano para compreender e usar as forças da natureza.

Pois podemos construir, também, armas de destruição em massa ou provocar o aquecimento global.

No caso da pandemia, que é um acontecimento natural de natureza biológica, podemos mitigar a ação letal do vírus, com o isolamento/afastamento social; ou podemos, como Bolsonaro e os que o seguem, nos somar à essa força natural e ajudar a aumentar o número de mortes.

Quem age assim está cometendo crime contra a humanidade, pois está se opondo ao valor fundamental da vida.

segunda-feira, 18 de maio de 2020

Com quem ficarão os militares? Com a democracia ou com a barbárie?

As FFAA ficaram com uma batata quente nas mãos com a eleição de Bolsonaro.

Eles já o conheciam e, agora, no exercício da presidência, o conhecem melhor ainda, e mais do que todos nós civis.

Bolsonaro está sendo muito pior do que as suas piores expectativas! É o que estão dizendo os democratas que votaram nele para promover uma alternância no poder e impedir que o PT voltasse ao governo!


Os militares têm compreensão e amor pela ciência e tecnologia, pois foram, desde a antiguidade, os primeiros a usar os avanços do conhecimento para obter vantagens estratégicas na guerra. Os pacifistas, civis ou militares, ficam de cabelo em pé com este fato, mas é a realidade histórica.

Não surpreende que os militares republicanos, no século XIX, tenham sido influenciados pelo positivismo, filho do Iluminismo, que marcou, na Europa, o encantamento com a descoberta das leis da natureza e com a ciência. Esta influência permanece até hoje em sua formação. Napoleão, p.ex., começou a destacar-se, desde a academia militar, por seu talento na matemática, essencial para calcular trajetórias balísticas; embora não fosse um francês de raiz, pois era corso, foi, em sua época, o oficial que chegou mais jovem ao posto de general.

O positivismo acreditou, neste ambiente, que se poderia, também, com o seu método, compreender melhor as relações sociais e, quem sabe, deduzir as próprias leis do desenvolvimento histórico. Neste sentido o positivismo é primo-irmão do marxismo.

Pois bem, voltemos a Bolsonaro. No segundo turno, a maioria dos militares votou em Bolsonaro. Este passara 28 anos de deputado federal como uma espécie de “sindicalista”, panfletando nas portas dos quartéis em defesa dos seus soldos e demais interesses corporativos. Era um tipo meio folclórico, por seu comportamento radical, e porque fora “expulso” do exército por indisciplina e por suas posições políticas de extrema-direita. O cenário dessa atuação se dá entre o período em que ainda vivíamos sob a ditadura militar até sua eleição em 2018. 

Mas a marca politica do seu discurso, e de sua atuação, no exercício dos mandatos parlamentares, ideologicamente, sempre foi o da defesa da ditadura, da tortura, da eliminação de comunistas, da defesa das armas e da intimidade que desenvolveu com as milícias paramilitares do Rio de Janeiro. Nesta visão de mundo formou seus filhos, e moldou a forma como agem e pensam, e pelas consequências, para o bem ou para o mal, do que lhes irá acontecer na justiça.

Este Bolsonaro não tem qualquer apreço pela democracia e pelo Estado Democrático de Direito. Ultimamente, porque não quer assumir o risco de disputar, e perder, as eleições de 2022, decidiu dar o golpe para estender o seu mandato. E é aí que a coisa começou a “pegar” na sua relação com os militares.

Naturalmente, a vitória de Bolsonaro foi saudada com júbilo pelos militares. Muitos foram chamados para assumir responsabilidades de governo e para assumir cargos estratégicos como ministros. Como profissionais capacitados e treinados estão orgulhosos. E óbvio, seus rendimentos aumentaram. Quem, honestamente, não gosta disso, particularmente se consideram lícito e merecido?

Mas uma coisa é o que Bolsonaro quer, sob a influência de figuras saídas das trevas, como Olavo de Carvalho, Steve Bannon, e do seu “gabinete do ódio”. Outra coisa são os compromissos e os valores dos militares com a democracia e com o Estado de Direito Democrático.

O que Bolsonaro tenta conformar? Um Estado miliciano apoiado em forças paramilitares, no envolvimento das PMs, da inteligência das forças armadas, da institucional - o GSI - e por, último da PF, fechando o círculo de um aparato repressor institucional. Não é muito inovador, reproduz o que já existiu durante a ditadura; a novidade seria a cooptação das milícias urbanas envolvidas com o crime.

Este é o plano da extrema-direita, mas não é o dos democratas civis ou militares. Para este plano dar certo, há, entretanto, uma condição. A de que a sociedade, majoritariamente, concorde em “fechar” o Congresso e o STF! Por isso o estímulo e o apoio que o presidente dá às manifestações em praça pública e em Brasília. Sem isso, o plano perde a sua viabilidade e ele não pode usar o seu poder institucional para dar o golpe. Mas ele já começou, insistentemente, a chocar o ovo da serpente!

O seu plano está perdendo viabilidade e as suas manifestações começaram a ficar pífias, como a de ontem, 17/05/20, em Brasília. Porque?

Surgiu uma estranha ocorrência da natureza, a pandemia do coronavírus. Ela tornou evidente a inabilitação de Bolsonaro para o papel de presidente a que circunstâncias únicas de nossa história o conduziram. Isso os cidadãos esclarecidos já sabiam, mas, na torcida por um Brasil melhor, por um momento, até se esforçaram para esquecer em respeito à institucionalidade democrática.

À pandemia, simultaneamente, se soma a grave recessão econômica, a quebra das empresas e o desemprego.

Mais do que nunca precisamos de união e da liderança de um estadista. Isto é tudo o que Bolsonaro não é. Pior, por sua ação, virou ele mesmo um grave problema sanitário, aumentando o número de mortes.

Volto ao tema inicial. Com quem ficarão os militares? Do lado do conhecimento, da ciência e da democracia? E porquê não dizer, da tolerância, do diálogo, do respeito, da moral, da ética, e da elegância? Ou escolherão a barbárie?