domingo, 8 de março de 2020

Ditadura nunca mais!

A chave para a compreensão de como Bolsonaro se movimenta politicamente é a sua permanente ação para manter unidos os bolsonaristas de raiz, os que são de extrema-direita como ele. São facilmente identificáveis: defendem regimes autoritários ou ditaduras de direita; estão propondo, neste instante, o fechamento do Congresso e do STF; não têm qualquer apreço pelo Estado Democrático de Direito. São a sua base firme. Notabilizam-se por defender milícias e greves inconstitucionais de PMs. Proclamam estar a postos, seja para ameaçar as instituições democráticas ou, mesmo, para reeleger Bolsonaro em 2022.

Bolsonaro fez uma troca. Preferiu ficar com esses fiéis radicais, a manter o apoio da maioria dos seus eleitores, os democratas que votaram nele para impedir que o PT voltasse ao governo. Claro, estes são muito abstratos, pois não os vê quando frequenta a porta dos quartéis para fazer suas panfletagens!

Manifestação de mulheres lutando contra a censura durante a ditadura militar. Hoje, domingo, 8 de março de 2020, comemora-se o Dia Internacional da Mulher
Ofereceu a cabeça de Moro, a quem traiu, tal como os rabos-presos lhe pediram. Tentou lhe retirar a Segurança Pública (o que só não o fez porque suas bases reagiram) e, se pudesse, já o teria mandado embora. Empenha-se, exercendo sua autoridade, em desmoralizar a Moro; ao tolher a sua ação, abandonou a luta contra a corrupção e a impunidade para proteger o seu clã; em sua mediocridade, o vê apenas como um concorrente, e mostra-se enciumado com sua popularidade. Felizmente Moro não perde o foco e tem uma paciência infinita!

Tem pago custos altos por isso: rachou com o PSL; demitiu o Bebbiano e o Gal Santos Cruz; rompeu com a Joice Hasselmann; perdeu parte de sua base parlamentar e recebe críticas de pessoas influentes  que antes lhes eram simpáticas, tal como a Janaina Paschoal; em consequência, vê a sua base democrática na sociedade diluir-se, como constatado pelas pesquisas de opinião. Parece não se importar em perde-los.

Ao convocar a manifestação do dia 15/03, já está provado que não foi porque não pudesse acertar os ponteiros com o Congresso em torno de questões orçamentárias, pois já negociou uma solução. Mas nega, convenientemente, essa pacificação, pois joga no confronto e na radicalização.

Na verdade, a manifestação tem como objetivo dar um tranco no Congresso e no STF e impor uma nova ordem. Apoia-se nos que defendem e querem uma ditadura. Tenta recuperar a iniciativa que julga ter perdido em busca de mais poderes, pois já há algum tempo, em sua louca paranóia, vê-se cercado de inimigos e acuado.

Faltando-lhe a visão de estadista, quer resolver “no pau”, em confronto de rua, o que não pode vencer com estratégia, planejamento, política e exercício digno dos imensos poderes constitucionais que um presidente tem, e em harmonia com os demais poderes.

Chama os seus radicais para um combate contra as instituições do Estado Democrático de Direito; passa longe de sua pauta propostas de reformas democráticas, e não vê as manifestações cívicas como formas pacíficas de aperfeiçoa-las, mas como instrumentos de força para subjuga-las como se tivessem que decidir com um fuzil apontado para suas cabeças; tudo o que conseguem propor é um Estado miliciano baseado na intolerância e na violência!

Se posicionariam o presidente, e os seus filhos Flavio e Eduardo Bolsonaro, nesta manifestação, a favor da prisão em 2ª instância? Claro que não, isto já saiu da pauta dos membros do seu clã!

Pensa ter apoio militar para isso, e não lhe faltam os puxa-sacos, como o Gal Heleno. Mas, se esse jogo de risco der errado, e se os generais não lhe derem apoio, como já está acontecendo com seus eleitores democratas, ele terá somado vigorosos pontos para a auto-desmoralização e para uma irrecuperável perda de confiança dentre os brasileiros.

O mais importante é que não podemos ficar passivos diante desses ataques ao Estado Democrático de Direito. Se fecharmos os olhos, por covardia, ingenuidade ou condescendência, estaremos deixando que cresça um monstro que poderá destruir a democracia tão duramente conquistada.

Desejamos isso para o Brasil? Claro que não! É necessário, portanto, que o presidente tenha compostura!

terça-feira, 3 de março de 2020

Carta aos democratas que votaram em Bolsonaro

Prezados eleitores democratas de Bolsonaro,

Permitam-me abrir uma discussão com vocês. Observem que não me considero dono da verdade e não me arrogo trazer para vocês certezas absolutas, pois o futuro é sempre cercado de incertezas. Além disso, em momentos de crise aumenta a imprevisibilidade. Se não existissem já muitos fatores que aumentam essas incertezas, some-se, ainda, as trazidas pela pandemia do coronavírus.

Passeata dos 100 mil, em 26 de junho 1968 no Rio de Janeiro. Foi a primeira manifestação de massas contra a ditadura militar. Ocorreu espontaneamente no dia seguinte ao assassinato do estudante secundarista Edson Luís durante repressão da PM no restaurante estudantil do Calabouço (*). 
Em primeiro lugar, permitam-me dizer que não podemos confundir os eleitores de Bolsonaro com o próprio Bolsonaro, pois, como verão, movem-se com lógicas diferentes.

Dele já sabemos, não porque eu queira isso, mas porque o seu pensamento político é um dos mais bem documentados por suas palavras e ações, que Bolsonaro é de extrema-direita e que tem um verdadeiro fascínio pelos ditadores e pelas ditaduras.

Mas pensam assim todos os seus eleitores? Uma parte sim, a estes eu denomino de “bolsonaristas de raiz”, pois o têm como líder e o merecem. São todos deste tipo? Acho que não, estes são apenas a minoria dos seus eleitores.

A maioria dos seus eleitores são democratas, que votaram nele para garantir a alternância do poder e para impedir que o PT voltasse ao governo.

Democratas, tenham votado ou não em Bolsonaro, não defendem ditaduras e somente querem viver em um Estado Democrático de Direito.

Então, qual o problema da manifestação do dia 15/03? Em primeiro lugar ela não está sendo convocada pelos democratas, mas por Bolsonaro e pelos bolsonaristas de raiz. Em segundo lugar, o seu objetivo é “enquadrar” duas instituições do Estado de Direito, o Congresso e o STF; não para pressiona-las para que apoiem pautas éticas, como a prisão em 2ª instância, ou para aperfeiçoa-las enquanto instituições democráticas, mas para submete-las ao arbítrio do poder executivo.

Vamos ser francos, essa manifestação é para dar mais poderes discricionários ao presidente Bolsonaro! Existiria algum impasse entre o Poder Executivo e os poderes Legislativo e Judiciário que não possa ser resolvido por meio da negociação? Claro que não!

Apenas concepções que não conseguem conviver com os valores da democracia acham isso impossível!

Todos os democratas sabemos que este é o objetivo da manifestação. E sabem disso, em primeiro lugar, os que estão convocando a manifestação! Mas, para surpresa de todos são, exatamente, os primeiros a negá-lo!

Claro, isso é muito estranho! Por isso, caros amigos, esses são os meus argumentos para que os democratas - todos, de todos os matizes - fiquem longe dessa manifestação! O sagrado direito de estar nas ruas, de protestar e de manifestar-se carece de qualquer legitimidade se for para romper com o valor maior do Estado Democrático de Direito!


Carlos Alberto Torres
3 de março de 2020

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(*) Tive a honra de participar desse evento histórico quando cursava o 3º ano do Curso de Engenharia da UFRJ.

O desmonte do combate à corrupção

Este material foi postado por Deltan Dallagnol em sua página no Facebook. Eu o reproduzo aqui pois é uma  referência importante para os que reconhecem o caráter democrático da luta contra a impunidade.

Sem dúvida o Congresso Nacional e o STF, em aliança com Bolsonaro, têm sido responsáveis pelos retrocessos ocorridos no combate à impunidade. Esses retrocessos têm ocorrido por decisões legislativas e do STF com poder normativo.

Bolsonaro, por sua vez, faz cara de paisagem e atua continua e decisivamente para limitar a ação do ministro Sergio Moro. Sua intenção é retirar-lhe todo o poder de promover o aperfeiçoamento das instituições jurídicas democráticas para a luta contra o crime. Somente não mandou Moro embora porque não quis pagar o desgaste que isso acarretaria em suas próprias bases. Mas, passo a passo, vai tentando enfraquece-lo. No outro dia, quase retirou a Segurança Pública do seu ministério, no mais absurdo acordo - com sabor de traição - com alguns Secretários de Segurança Estaduais, inclusive do PT. Consta que sua intenção é recriar o Ministério da Segurança Pública e nomear como ministro o seu amigo da bancada da bala, o Cel Alberto Fraga da PM/DF.

Deltan Dallagnol:

"Desde o início de fevereiro, tenho publicado uma série de artigos na Gazeta do Povo sobre o Desmonte do Combate à Corrupção (veja o primeiro link abaixo). O que está acontecendo causa indignação. Estou trazendo informações para que a sociedade conheça os problemas e as possíveis soluções e se envolva na discussão. Vou compartilhar aqui em sequência os links para que você possa acompanhar:

O desmonte do combate à corrupção


Nova lei de abuso de autoridade prejudica o combate à corrupção


A colaboração premiada e o combate à corrupção sob ameaça


Juiz de garantias: o que você precisa saber


A regra de que os réus delatados falem por último causa quanta demora e impunidade?


Anulado processo de Pasadena, a refinaria que enterrou bilhões de reais

quarta-feira, 26 de fevereiro de 2020

O perigoso jogo de Bolsonaro e seus generais

Tudo pode dar errado nesta escalada contra o Congresso proposta pelo Gal Heleno e endossada por Bolsonaro. A manifestação que convocam para o dia 15/03 não é uma prova de força, mas de fraqueza.


Ela se dá, exatamente, no momento em que os eleitores democratas de Bolsonaro começam a manifestar-se inseguros com os desvios comportamentais do presidente. Agora, ao dar inicio a um confronto direto com o Congresso, começa a caminhar nas fronteiras do crime de responsabilidade.

As pesquisas de opinião já demonstravam que vinha perdendo a confiança de seus eleitores. Agora, tenciona a sua base militar com o risco de perdê-la. E, internacionalmente, sua ação consolidará a imagem de quem não respeita as instituições democráticas e pretende implantar um regime totalitário de extrema direita.

O que, ao final, conseguirá? Não o seu fortalecimento político, nem a sua ditadura sonhada, mas a desmoralização! Terá o dissabor de, pouco a pouco, ver crescer uma imensa frente democrática em defesa do Estado Democrático de Direito. E nesta frente, firmes, o dissabor ainda maior de ver a maioria de seus ex-eleitores.

O desdobrar da crise, segundo o jornalista Andrei Meireles (*):
“O novo bunker de generais no Palácio do Planalto, sob a batuta do ministro Augusto Heleno, parece disposto a esticar a corda na queda de braço contra o Parlamento e a quem mais se oponha ao presidente Jair Bolsonaro. Está apoiando abertamente uma manifestação convocada por grupos conservadores para o dia 15 de março com a palavra de ordem “fora (Rodrigo) Maia e (Davi) Alcolumbre”, acompanhada de uma clara ameaça: “Os generais aguardam as ordens do povo”, em um panfleto digital com as fotos do vice-presidente Hamilton Mourão e do ministro Augusto Heleno.”
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(*)  https://osdivergentes.com.br/andrei-meireles/o-perigoso-jogo-de-bolsonaro-e-seus-generais/?fbclid=IwAR2Hf0crO-sm6lMYZuTWrbc7ymY6svmG1K92-dkmJgcBZoRZGuDyFvH4238

terça-feira, 25 de fevereiro de 2020

A quem interessa o Estado Democrático de Direito?

Estado Democrático de Direito. Um conceito demasiado abstrato, não é?

Para os que defendem projetos totalitários, é conversa mole para boi dormir.

Falando claro, quem pensa assim? Os que, à extrema direita ou à extrema esquerda defendem ditaduras como o método mais eficiente para alcançarem seus objetivos políticos, porque o vêm como uma camisa-de-força que os obriga a se submeterem a regras que consideram espúrias.

Para a extrema direita, não passa dessa coisa dos que defendem os direitos humanos. Para a extrema esquerda é uma forma das classes dominantes exercerem em paz a sua exploração.


Dois são os elementos básicos do Estado Democrático de Direito: (1) a democracia representativa, no sentido de que os cargos dos poderes executivo e legislativo devem ser preenchidos por eleição e exercidos em nome do povo; (2) o império das leis, no sentido de que ninguém pode estar acima da lei e de que os contratos legais livremente acordados devem ser cumpridos. Estes elementos são exercidos em torno de valores fundamentais, como os da liberdade, igualdade, propriedade, divisão dos poderes, o da república, etc.

Mas quem são os verdadeiros e maiores interessados no Estado Democrático de Direito?
  1. Os desprovidos de poder político, a imensa maioria do povo, sem o qual a sua vida e os seus direitos não valem mais nada, estando submetidos ao arbítrio e à vontade dos que o exercem ditatorialmente, o que só é possível com a violência e com a força das armas;
  2. Os que fazem parte das minorias (sociológicas), os pobres, os pretos, as mulheres, os índios, os homoafetivos, os diferentes; novamente, em nossa sociedade, a maioria dos brasileiros;
  3. Os que dependem da liberdade em suas atividades profissionais ou cidadãs, para produzir conhecimento científico ou ensinar, para informar ao público na atividade jornalística, para competir na atividade econômica, para produzir cultura e exercer a atividade artística, para estudar e aprender o que bem entenda; enfim, a imensa maioria, os que desejam ser o que lhes indica suas vocações e individualidades;
  4. Os que querem viver livres do medo de ir e de vir, de organizar-se politicamente, e de exercer a liberdade religiosa e de consciência; ou seja, um direito fundamental de todos os seres humanos.
Mas o nosso Estado Democrático de Direito precisa ser aperfeiçoado! Ele carece de reformas de caráter democrático para acabar com a impunidade e para que centenas de aproveitadores, eleitos com o voto do povo nos poderes legislativo e executivo, parem de assaltar os brasileiros. E, mesmo, para acabar com a prática de muitos juízes de venderem sentenças. A luta contra a corrupção é, pois, uma bandeira democrática a ser erguida o mais alto possível por todos os democratas!

Muitos que defendem ditaduras aproveitam-se dessa fragilidade do nosso Estado Democrático de Direito como pretexto para atacá-lo! E a hora é esta, jamais conseguiremos defende-lo jogando as deficiências do nosso Estado de Direito para debaixo do tapete!

Alguns, entretanto, pertencentes a essa maioria dos que tudo têm a ganhar com o Estado Democrático de Direito, seguem a minorias obscurantistas que neste instante estão querendo armar o povo com a panaceia de um projeto ditatorial.

Óbvio, somente são contra o Estado Democrático de Direito os que menosprezam os direitos humanos. Recusam-se, ideologicamente, a aceitar que não são donos da verdade. Não compreendem que o melhor dos mundos é o que respeita a maior riqueza que um país possa ter, que é exatamente a diversidade de todas os indivíduos que o compõem, seja de pensamento, racial, comportamental ou religiosa.

Mas se quisermos exorcizar o risco da ditadura precisamos dar nome ao bois. Esse risco neste momento vem, exatamente, do presidente Bolsonaro, não por qualquer análise subjetiva, mas por suas inúmeras declarações públicas vastamente documentadas.

É hora da imensa maioria dos democratas, inclusive a maioria dos eleitores de Bolsonaro, dizerem não a tais intentos!

segunda-feira, 24 de fevereiro de 2020

Das milícias às forças paramilitares

Os democratas não podem conciliar com a estratégia de Bolsonaro de afrontar a Constituição e apoiar a criação de forças paramilitares com objetivos políticos.


Essa prática escancarada ele já defendia com o apoio explícito às milícias do Rio de Janeiro. O apoio declarado às greves de PMs ele já iniciara desde a de 2017 no Espírito Santo, quando ainda era deputado.

Agora, como presidente, sinaliza a sua disposição de apoiar essas greves ilegais, o que nos remete de volta à selva, em que a vida e a segurança dos cidadãos passa a não valer mais nada. Sua estratégia, óbvia, é a de comprometer a autoridade dos governadores e retirar-lhes o controle sobre as forças de segurança.

quinta-feira, 20 de fevereiro de 2020

Minha charge da semana:


quarta-feira, 19 de fevereiro de 2020

Unindo os democratas

Há, necessariamente, uma questão metodológica quando se examina a realidade com os olhos da ciência, seja a realidade natural ou a social. A necessidade de um certo distanciamento para ver e entender a realidade objetiva.

Pois bem, Bolsonaro foi eleito. A primeira questão, então, é reconhecer o óbvio, de que foi eleito com a maioria dos votos.

A segunda questão, e essa é mais difícil, é a de reconhecer que os seus eleitores não são apenas do tipo “bolsonaristas de raiz”, ou seja, por simplicidade, pessoas que convergem em pensamento político ou ideológico com ele. Já de passagem eu o caracterizo como de extrema direita, não democrata e admirador de ditaduras totalitárias; observo que cada uma dessas caracterizações está apoiada na vasta documentação existente a partir de suas próprias declarações.

Existe um outro contingente de seus eleitores, não bolsonaristas de raiz, que julgo ser a maioria, são os que votaram nele para impedir que o PT voltasse ao governo. Não são homogêneos, muitos são de direita, mas são democratas, pois repudiam quaisquer tipos de ditaduras e somente querem viver em um Estado Democrático de Direito. Os petistas, politicamente, não podem aceitar isto, mas sabem que é a realidade.

Mas, os que não se desgarram da visão polar do mundo, seja por ideologia ou estratégia política, ora acusam os não bolsonaristas de petistas, porque são oposição a Bolsonaro; ora chamam de bolsonaristas aos que, com total nitidez, estão empenhados na busca de uma alternativa democrática ao bolsonarismo e ao lulopetismo.

Mas os fatos são insistentes, por isso volto ao tema inicial. Primeiro, se a clivagem que queiramos fazer, por exemplo, não for a política, mas a religiosa, é necessário reconhecer que não foi apenas a maioria dos evangélicos que votou em Bolsonaro no 2º turno mas, também, a maioria dos católicos. Alguns acharão isso duro de aceitar pois sempre consideraram as comunidades católicas mais ativas como um “curral” do PT.

Mas o primeiro passo para retomarmos o aperfeiçoamento do processo democrático, e deixarmos para trás o obscurantismo bolsonarista, é assumir a realidade dos fatos, e compreender o caráter democrático da luta contra a impunidade, para que esta bandeira seja valor fundamental de qualquer projeto democrático, e esteja nas mãos certas!

domingo, 16 de fevereiro de 2020

Um liberal autoritário

Vou ser sincero. Cresce e, lamentavelmente, muito rapidamente, a minha má vontade com Paulo Guedes.

E eu sou dos que apoiou como indispensável uma reforma da previdência para ajustar o perfil do orçamento fiscal aos novos tempos para garantir a liquidez necessária para fazer frente ao pagamento das aposentadorias diante da expectativa cada vez maior de vida dos idosos.

Sou desses que, por não ser economista, o nome de Guedes pouco frequentou as minhas referências. Não me culpo por isso, pois segui outro caminho profissional.


Porém, confesso, tenho me incomodado - e muito - com algumas de suas declarações. Citarei, para ilustrar, algumas de que me lembro; talvez não sejam as suas piores, sintam-se à vontade para complementar:
  1. No jantar na embaixada brasileira em Washington, logo após o início do seu governo, Bolsonaro fez sentar à sua direita, Olavo de Carvalho e, à sua esquerda, Steve Bannon. Guedes se saiu com essa em seu discurso na ocasião: referiu-se à Olavo de Carvalho, como o “...líder de nossa revolução”. Se não achava, realmente, isso, que não o dissesse, pois ninguém deve dizer intencionalmente o contrário do que pensa.
  2. Em outra ocasião, quando Bolsonaro chamou a Michelle Macron de feia, Guedes o secundou. Mais uma vez, perguntei-me, o que levaria Guedes a secundar o seu chefe em tão inadmissível, tosca e inaceitável agressão gratuita, com claras e nefastas consequências às relações do Brasil com a França?
  3. Quando Eduardo Bolsonaro aludiu à eventual necessidade de um novo AI-5, mais uma vez lá estava Guedes prestando declarações dúbias, secundado pelo general Heleno, que amplificaram o assunto e deixaram em dúvida se essa proposta estaria sendo cogitada dentro do governo.
  4. Para não estender demasiado, sua última declaração em que revela inadmissível preconceito a que as “...empregadas domésticas - com o dólar baixo - viajem para a Disneylândia (exterior)”.
Essas declarações podem ser meramente manifestações de “puxasaquismo” explícito para agradar o chefe que pensa assim, o que já deporia, se fosse apenas isso, contra o caráter de qualquer um; mas podem ser mais: ele pode pensar exatamente assim, e não ter qualquer apreço pela democracia.

Porém, suas últimas declarações no campo mais explicitamente econômico, além de prejudicar a própria economia, deixam a todos com o cabelo em pé. Além de irresponsáveis para um ministro da economia, o que provocou um ataque especulativo ao câmbio, revelou que o “seu” ultrapassado liberalismo não inclui o combate às desigualdades sociais.

Cabe perguntar se Guedes, além de sua personalidade histriônica, tem algo mais a oferecer para exercer o cargo que ocupa, além do que, pelo menos para mim, se parece, cada vez mais, com uma farsesca competência. Passo a palavra.

quarta-feira, 29 de janeiro de 2020

Cresce número de brasileiros que defendem a democracia

A maioria dos brasileiros repudia qualquer tipo de ditadura e quer viver somente em um Estado Democrático de Direito. Eles são democratas.

No segundo turno das eleições presidenciais de 2018 os democratas se dividiram da seguinte forma: (1) os que votaram em Bolsonaro, sem gostar dele, para impedir que o PT voltasse ao governo; (2) os que votaram em Haddad, sem gostar do PT, para impedir que Bolsonaro vencesse; (3) os que votaram nulo ou branco, porque se sentiram diante de uma impossível decisão de votar em Bolsonaro ou Haddad; (4) a maioria dos que se abstiveram e não compareceram às urnas.

Esta matéria do Globo mostra que de 2018 a 2019 aumentou - de 56,2% para 64,8% - o número de brasileiros que acreditam na democracia. Existe esperança!

sexta-feira, 24 de janeiro de 2020

A tentativa de golpe - abortada - para derrubar Moro

Secretários de Segurança, 17, se reuniram com o presidente na última quarta-feira, dia 22/01/2022, sem a presença de Moro, que não foi convidado para a reunião, para reivindicar a criação do Ministério da Segurança Pública. E assinaram um manifesto neste sentido.


Uma reunião com essa natureza não ocorre de uma hora para outra. E jamais teria sido articulada, desde o primeiro momento, sem o aval do próprio presidente. Bolsonaro, óbvio, organiza uma conspiração para fragilizar o ministro Sergio Moro, e retirar-lhe os instrumentos e o poder para combater a corrupção e o crime organizado. Os precedentes, até aqui, já são bem conhecidos.

Não estivesse o trabalho de Moro dando certo, pois em sua gestão os índices de criminalidade caíram significativamente, esta mudança na estrutura da justiça já seria uma demanda da própria sociedade! Mas não é o caso! Na verdade, o que está sendo proposto pega a todos de surpresa!

Esse reconhecimento dos brasileiros ao trabalho de Moro é revelado pelas próprias pesquisas de popularidade, que o colocam como o homen público com maior credibilidade!

Mas quem não está sendo surpreendido com esse golpe que está sendo tramado contra a luta para acabar com a impunidade? Exatamente os que participam dessa conspiração! Bolsonaro, por óbvio, que, à sua frente, articula e comanda essa mudança! Mas quem mais? Com que objetivos?

Paro por aqui, pois acabei de ler a notícia de que Bolsonaro descartou, pelo menos enquanto está viajando à Índia, a retirada da Segurança pública das atribuições de Moro, pois "...não se mexe em time que está ganhando".

Acho, pessoalmente, que o presidente não abandonou a idéia, que vem ao encontro do que desejam todos os rabos-presos, que formam a "santa aliança" tácita dos que temem e combatem a Lava-Jato-Jato. Essa aliança suprapartidária e supra-ideológica varre, da esquerda à direita, todo o espectro político. É a aliança do atraso que não reconhece o caráter democrático de acabar com a impunidade. Une personalidades políticas tão distintas quanto Bolsonaro, Rodrigo Maia e Dias Toffoli.

Mas, observem, um novo ingrediente se coloca. Esta mudança é, também, uma nova ofensiva de setores de extrema-direita, que querem um militar à frente da Segurança Pública, como o Cel Alberto Fraga da PM/DF, com a visão estratégica de que o povo, e suas manifestações de rua, são o principal inimigo. É a chamada voz dos porões dos saudosos da ditadura militar.

O mais grave é que muitos democratas de direita, de centro e de esquerda, que se somam à guerra contra Moro, e apoiam a sua fragilização e deposição do ministério, estão sendo inocentes úteis do projeto da extrema-direita.

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É sempre muito interessante o desdobrar dos fatos políticos. Bolsonaro é vazio de conteúdo conceitual, e sabe praticar apenas o confronto polar da guerra de movimento, e atropelar seus adversários; escapa-lhe as sutilezas da política. Isto fez com que fosse por 28 anos um membro do baixo clero, do qual continua mesmo como presidente.

Gostaria de observar sobre alguns números obtidos nas matérias que noticiaram o encontro dos Secretários de Segurança com Bolsonaro. Se estiveram presentes apenas 17 secretários, quantos teriam se manifestado a favor de desmembrar o Ministério da Justiça? Quantos foram contra?

Mas há a possibilidade de que alguns secretários não tenham, em seguida, assinado qualquer compromisso em favor do Ministério da Segurança Pública, porque o conchavo foi mal feito; alguns secretários foram pegos de surpresa e logo perceberam que uma questão de tal importância não poderia ser tratada levianamente sem conversar previamente com seus governadores.

Ou seja, o tiro de Bolsonaro pode ter saído pela culatra, gerando mal estar político e conflito com os governadores.

Na vida política e em teoria social essas são chamadas de consequências não intencionais de ações intencionais.

Pois bem, se Bolsonaro com o seu recuo já demonstra que o conchavo foi mal feito, isso não significa que o mal estar entre ele e Moro não possa ter se aprofundado! Afinal, a tramoia e conspiração orquestrada por Bolsonaro contra Moro sempre terá alguma consequência.

A mais evidente, é a de que a sua máscara está caindo rapidamente, particularmente entre os democratas que votaram nele para se livrarem do PT.

terça-feira, 21 de janeiro de 2020

Moro: - "...minha paciência é infinita"

Uma das frases que Moro usou na entrevista dada ao Roda Viva na edição do dia 20/01/2020 (*) é que a sua “...paciência é infinita”.


De fato, ele precisa dela, pois há uma contradição real entre Moro e Bolsonaro. E muitos torcem para que Moro chegue à sua capacidade limite de engolir sapos e saia do governo por conta própria.

São, praticamente, dois os posicionamentos dos que torcem por isso: (1) o dos rabos-presos, ou seus militantes, que sabem que a saída de Moro do governo não apenas o enfraquecerá, mas, sobretudo, fragilizará a luta contra a corrupção; (2) o dos que, contraditoriamente, gostam de Moro, reconhecem a importância da Lava-Jato e defendem o caráter democrático da luta contra a impunidade, mas acham que a permanência de Moro fortalece a Bolsonaro, que consideram um fascista.

Os “rabos-presos” e seus militantes, diga-se de passagem, formam uma “santa aliança” dos que temem e combatem a Lava-Jato. Estão em toda parte, no governo, no legislativo, no judiciário, e se articulam suprapartidária e supra-ideologicamente à esquerda, ao centro e à direita do espectro político.

Sou dos que defendem a permanência de Moro no governo, mesmo tendo que engolir sapos, porque tudo em política é passageiro, e porque a luta contra a impunidade é um valor permanente da democracia. Como acho que este valor está nas mãos de Moro, e não nas de Bolsonaro, que estou convencido passará rapidamente, mais importante ainda ter calma e paciência até atravessar este mar revolto.

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segunda-feira, 20 de janeiro de 2020

Em defesa de Moro

Um querido amigo, democrata provado, coloca objeções quanto à permanência de Moro no ministério.

Sua preocupação, como entendo, não é porque não reconheça a importância de Moro na luta contra a impunidade dos criminosos de colarinho branco e os incontestáveis resultados alcançados pela Lava-Jato neste objetivo.


Sua preocupação é a de que a continuidade de sua presença no governo colocaria em dúvida o próprio caráter democrático da luta contra a impunidade. Reporta-se ao fato de que as experiências fascistas na Europa da primeira metade do Séc. XX registraram que o combate à corrupção foi uma mera retórica para implantarem, ao final, regimes ainda mais corruptos e totalitários, que levaram à desgraça dos 85 milhões de mortos da 2ª guerra mundial.

Tenho defendido que Moro somente saia do governo se Bolsonaro o mandar embora. Sei que corro o risco de ser criticado por alguns na própria perspectiva dos democratas, mas Moro fez história e hoje tem um apoio na opinião pública maior do que o de Bolsonaro. Por isso assumo o risco. Mantenho o meu apoio a Moro.

A recente rejeição da maioria democrática da sociedade ao “Plano Bolsonaro/Alvim” para a Cultura mostra-nos que vivemos em um outro contexto e que podemos ter fundadas esperanças.

Na verdade, Moro, ao ter deixado a sua carreira de juiz, à qual não pode mais voltar, ficou sem melhor alternativa a não ser resistir a todas as traições de Bolsonaro e ir engolindo os sapos. Ele somente perderia - e todos nós - se saísse por conta própria, como querem os rabos-presos, fazendo o papel de “nervosinho”, “traidinho”, “coitadinho” e “indignadinho”. Não creio que seja de sua personalidade, e isso me faz gostar ainda mais dele.

Por isso, optou por marcar claramente suas posições, contrárias às de Bolsonaro; e, enquanto ele só cresce em apoio, Bolsonaro só cai.

Se persistir, e não cair em nenhuma armadilha, manterá o seu prestígio e lhe estará assegurada, em outro momento, a continuação da missão a que se atribuiu de aperfeiçoar as instituições jurídicas democráticas para acabar com a impunidade. 

Acho que ele deve persistir neste objetivo que lhe deu importância social e política, e aproveito para deixar claro, também, que não estou engajado na sua candidatura a presidente da república!

segunda-feira, 6 de janeiro de 2020

Que 2020 vamos deixar para a História?



“Que 2020 vamos deixar para a História?

Senhoras e senhores, meninas e meninos, bem vindos a bordo.

Iniciamos 2020 sem conseguir ainda espantar completamente os fantasmas de 2019, que definitivamente foi um ano marcado por acontecimentos trágicos.

Agora, em poucos dias, Trump ataca o Irã, incêndios florestais devastam a Austrália, um catador de material reciclável é incendiado na Mooca, Bolsonaro diz que os livros didáticos são lixo porque "têm muita coisa escrita"...

Meu Deus, olhai por nós!

Ora, mas se até o Papa Francisco começou o ano dando uns tapas na mão da mulher sem noção que puxou o braço dele, não espere algo muito diferente de nós.

Vamos bater pesado (no sentido figurado, espera-se) em lunáticos e fanáticos de direita ou de esquerda e em puxa-sacos de Bolsonaro, Lula, Doria, Huck e quem mais aparecer por aí como salvador da pátria.

Sim, fazemos oposição ao bolsonarismo. Não, não queremos Lula de volta. Para espanto e incompreensão do raciocínio binário dessa polarização burra e deletéria que toma conta do Brasil, acreditamos que é necessário encontrar uma saída equidistante, equilibrada, sensata e racional entre as quadrilhas petistas e as milícias bolsonaristas.

O mundo vive cada vez mais um clima de guerra. A civilização vem perdendo espaço para a barbárie num ritmo alucinante. Predominam o ódio, o preconceito, a intolerância. Em nome de ideologias, religiões, costumes e interesses, reacionários e obscurantistas fazem apologia de ditaduras, da censura, da tortura e do terror. Não é possível que essa escória seja maioria.

Em 2020, ao menos por aqui, não passarão!

Como disse Rui Barbosa: "A pátria não é ninguém: são todos; e cada qual tem no seio dela o mesmo direito à ideia, à palavra, à associação. A pátria não é um sistema, nem uma seita, nem um monopólio, nem uma forma de governo; é o céu, o solo, o povo, a tradição, a consciência, o lar, o berço dos filhos e o túmulo dos antepassados, a comunhão da lei, da língua e da liberdade."
Em 2020 vamos batalhar por mais sensatez, empatia, solidariedade, altruísmo, racionalidade e inteligência emocional. Por uma consciência ambiental e sustentável, pelo amor à humanidade e aos seres vivos, pela preservação da natureza, pelo respeito à diversidade. Não é por favor ou obrigação, mas até por instinto de sobrevivência.

A vida não é monopólio da direita ou da esquerda. Nem a inteligência. Será que tudo que falamos, pensamos e postamos precisa passar sempre por um filtro partidário, político e ideológico? Ô chatice, sô!

Não é possível que até um "bom dia" ou um "feliz ano novo" gerem polêmica, discussão, agressão. É inadmissível que não possamos ter opiniões divergentes sem sermos xingados, ameaçados, perseguidos.

Se até o cérebro tem dois hemisférios; e o coração, dois ventrículos: o direito e o esquerdo, custa botar os dois juntos para funcionar?”

A traição de Bolsonaro a Moro

A última tacada de Maia e Toffoli, em articulação com Bolsonaro, para retirar de Moro poder de influência e capacidade de combater a impunidade é retirar a Segurança Pública da alçada do seu ministério; com isso ficará sacramentada a traição de Bolsonaro aos seus eleitores, que acreditaram e o elegeram acreditando que ele tinha compromisso com o combate à corrupção.


Depois disso Bolsonaro despencará nas pesquisas de popularidade, e submergirá em descrédito na onda de indignação com a sua propaganda enganosa.

De Andrei Meireles (*):

“Em meados do ano passado, um acordão entre Jair Bolsonaro, Dias Toffoli e Rodrigo Maia por muito pouco não conseguiu derrubar Sérgio Moro e barrar os avanços da Lava Jato e de outras grandes investigações sobre corrupção. Em conversas no alto escalão da República nesse final de ano em Brasília, pelo menos três fontes confirmaram que, em setembro, Bolsonaro resolveu demitir Sérgio Moro do Ministério da Justiça e Segurança Pública. Só não consumou o ato por causa das ponderações dos generais Augusto Heleno e Luiz Eduardo Ramos, na época com o cacife em alta no Palácio do Planalto.”

Observação. Eu sei que muitos eleitores ou não de Bolsonaro consideram as notícias relacionadas à existência de um “acórdão” entre Bolsonaro, Maia e Toffoli meramente especulativas. Alguns até a consideram intencionalmente “fake”. Mas eu gostaria de dizer que eu não acho, por isso eu as publico. Aliás, essa tese já vem sendo trazida aqui há vários meses. O comportamento dúbio de Bolsonaro em vários momentos durante o primeiro ano de governo como que insistem em comprovar essa tese. Sou dos que consideram que as ilusões - que negam a realidade - são armadilhas da mente muito mais perigosas. Melhor, sempre, é a realidade objetiva dos fatos, mesmo que inicialmente conhecê-los, e reconhecê-los, possa ser muito doloroso.

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domingo, 5 de janeiro de 2020

A incontestável credibilidade de Moro

A incontestável credibilidade de Moro. Insisto, não é para implicar com ninguém, mas porque julgo que as ilusões não nos ajudarão a construir um Brasil melhor e livre da impunidade. A realidade objetiva será a nossa principal aliada. Se somos sérios, temos que considerá-la.
Ridiculamente, Bolsonaro, hoje, tem menor credibilidade que Lula. Felizmente, em minha opinião, os democratas, que são dezenas de milhões, e a maioria dos brasileiros, estão cada vez mais convencidos de que temos que encontrar, para 2022, uma alternativa aos polos do bolsonarismo e do lulismo.

Este post está baseado em pesquisa do DataFolha (*).

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sábado, 4 de janeiro de 2020

Queremos um 2020 bem redondo!

Minha charge da semana:

quarta-feira, 1 de janeiro de 2020