terça-feira, 2 de junho de 2020

O que é ser Democrata?

Democratas são os cidadãos:

  1. que repudiam todo tipo de ditaduras, sejam elas de direita ou de esquerda;
  2. que somente queiram viver em um Estado Democrático de Direito.
Ser democrata não é monopólio dos que se situam à direita ou à esquerda do espectro político, e não são democratas os que desprezem as condições acima.

Como corolário, define-se como não-democratas, de extrema direita ou de extrema esquerda, os cidadãos que defendam regimes ditatoriais e que desprezem viver fora das premissas do Estado Democrático de Direito.

Os cientistas políticos e sociais talvez prefiram definições mais acuradas e completas do que seja ser democrata. Mas não tem jeito, se não satisfizerem às duas condições acima, não estarão definindo o que seja ser democrata. As pessoas, ao se pensarem como democratas, talvez não digam para si mesmas: “eu sou democrata porque repudio todo tipo de ditaduras e só quero viver em um estado democrático de direito”. Mas não tem jeito, se defenderem ditaduras e não tiverem apreço por viver em um Estado Democrático de Direito, não são democratas.

Vejamos outra distinção importante nos nossos dias para o debate sobre o que seja ser democrata: a do ser civil ou militar.

100% dos brasileiros são civis ou são militares. Quem é civil não é militar, e vice versa. Na figura abaixo, a área à direita da linha branca representa os militares; à esquerda, os civis. A percentagem de militares é bem menor do que a de civis; observe que na figura a área que representa a população de militares, para fins de melhor visualização, está superdimensionada.


Democratas são o subconjunto dos brasileiros, civis ou militares, representados em azul; são a maioria. Os não-democratas, civis ou militares, representados em preto, completam os 100% dos brasileiros; são a minoria. Muito mais pode e deve ser dito sobre o assunto. Mas essa ilustração gráfica, por ser lógica e intuitiva, aqui está registrada para abrir o debate.

Naturalmente, outras distinções são importantes para levar adiante o entendimento sobre o que seja ser democrata. Acima, utilizamos a distinção esquerda/direita. Portanto, essa caracterização clássica exige, também, a consideração de um centro democrático.

Em uma outra vertente, alguns apontam a inadequação dos conceitos esquerda e direita políticas para pensar a realidade politica, econômica e social na atual etapa do desenvolvimento científico e tecnológico da humanidade. Provavelmente estejamos às vésperas de surgir uma nova ciência política, e sociologia, propiciada pela abundante existência de informações e de recursos computacionais para tratá-las. Isto daria surgimento a uma nova sociedade democrática organizada em redes e novas relações sociais, com a predominância do estudo e do trabalho à distância. Fique o registro respeitoso. Como isso mudará o nosso conceito de democracia?

Outras distinções, ainda, para caracterizar os democratas, podem e devem ser feitas por classes ou camadas sociais, por nível de renda, regionais, etc. Todas, desde que tenham base empírica, são necessárias para entender o que são, onde estão e como pensam os democratas no Brasil. Esta é uma tarefa para os nossos cientistas sociais.

Uma importante distinção nos dias de hoje volta-se para entender o eleitor de Bolsonaro. Para os fins desta análise eles são, basicamente, de dois tipos: 
  • os bolsonaristas de raiz, de extrema-direita, como ele, e que são nostálgicos da ditadura militar; estão entre 10 e 20 milhões de brasileiros;
  • os democratas que nele votaram para promover a alternância do poder e impedir que o PT voltasse ao governo. São a grande maioria dos seus eleitores, e estão entre 30 e 40 milhões de brasileiros. 
Muitos que não votaram em Bolsonaro costumam recusar o fato de que milhões de seus eleitores sejam democratas; mas estão errados. Os extremos praticam na política o “nós contra eles”. Colocam-se como referência do mundo e atribuem-se a si mesmos o monopólio do que seja o bom, o bonito, o moral, o ético e as boas qualidades. Claro, para quem pense assim, o adversário só poderá ser a representação, mesmo que apenas imaginária, e fantasmagórica, do que julgam ser as piores qualidades.

Valho-me, para ilustrar, do pertinente comentário do ex procurador da Lava-Jato Dr. Carlos Fernando dos Santos Lima:
”Para a extrema direita, o que está à esquerda é comunista. Para a extrema esquerda, o que está à direita é fascista. É preciso deixá-los gritando sozinhos...”

Claro, a realidade é muito mais complexa, e entre os extremos existem muitos matizes e diversidade. A que nos interessa neste texto são as várias tonalidades com que se manifesta o pensamento político democrático, e uni-los, para salvar e fortalecer a própria democracia.

segunda-feira, 1 de junho de 2020

Nós, os democratas, SOMOS MUITOS!

Os democratas de todos os matizes políticos - de direita, de centro e de esquerda - repudiam todo tipo de ditaduras e só querem viver em um Estado Democrático de Direito.

Nós somos muitos, milhões, nada menos do que a esmagadora maioria dos brasileiros!

Somos pacíficos, amamos a liberdade e não queremos armas para defendê-la ou para impor a nossa vontade.

Defendemos o diálogo, a tolerância e não queremos impor as nossas verdades.

Com o manifesto “Somos muitos” mostramos a nossa cara!


Para aderir acesse: www.movimentoestamosjuntos.org

Torcidas organizadas não representam os democratas!

Bolsonaro está perdendo o embate para os que clamam por democracia, repudiam todo tipo de ditaduras e só querem viver em um Estado Democrático de Direito.

Algumas razões:

(1) por seus próprios erros, ele está perdendo milhões de eleitores; as pesquisas mostram isso;

(2) a divulgação do vídeo da reunião ministerial de 22/04/20 foi um divisor de águas, mostrando, claramente, a sua inabilitação para o cargo;

(3) as manifestações de rua de que participa e incentiva têm um número cada vez menor de participantes, estão ficando ridículas; em que pese sejam frequentes, elas são apenas de militantes radicais, que apoiam uma ditadura militar, e o fechamento do Congresso e do STF; não são expontâneas e são financiadas, como as dos 30 nazistas, com suas tochas, em frente ao STF, as em frente aos quartéis, e as do último domingo (31/05/20), na Av. Paulista, no Rio e em Brasília;

(4) estão na defensiva e aterrorizados devido aos processos judiciais em que estão envolvidos, que terão desdobramentos importantes no STF;

(6) as FFAA não estão dispostas a qualquer aventura autoritária, muito menos com Bolsonaro, pois sabem, melhor que os civis, que ele é desqualificado e trapalhão; por isso, não goza de respeito; sobretudo, porque estão comprometidas com o Estado de Direito;

(7) os democratas começaram a unir-se em movimentos que se desdobrarão no momento oportuno com manifestações pacíficas de milhões na rua: vide o manifesto dos juristas, “Basta”, o movimento amplo representado pelo “Somos Muitos”, o “somos 70%”, etc.

Se existe algo que levará argumentos pro projeto totalitário do Bolsonaro é a gestação de um clima de conflagração nas principais capitais, com quebra-quebra, e até com mortes providenciais.

O mais importante é que só derrotaremos o pensamento dos que querem uma ditadura, pacificamente, com milhões de democratas nas ruas. Eles querem a volta a um regime totalitário, sustentado por milícias, como na Venezuela, com restrições às liberdades, repressão política, cerceamento das liberdades de pensamento, de opinião e de organização política.

Somente manifestações pacíficas e bem organizadas terão o condão de barrar o golpe que Bolsonaro quer dar. Nelas, se aparecerem milícias de qualquer natureza, sejam bolsonaristas ou de torcidas organizadas violentas, terão que ficar “pianinho” diante do caráter cívico que terão.

Definitivamente, não temos, em nada, que agradecer a esses “revolucionários”, que somente estão servindo para deflagrar a violência desejada pelos que já estão com as armas nas mãos!


Sobretudo, não podemos cair na armadilha e na provocação criadas por essas manifestações estimuladas pelo presidente Bolsonaro e pelos seus apoiadores radicais de extrema-direita!

Não devemos nos deixar levar nem nos confundir com a sensação fugaz, mas ilusória, de avaliar como positivos os confrontos que se verificaram no domingo, 31/05, na avenida Paulista! Isto equivaleria a entregar o futuro do projeto democrático, e o nosso futuro, às “revolucionárias torcidas organizadas” e aos seus violentos e infiltrados militantes.

O clima está tenso, é verdade! Mas não vamos perder a calma, não é?

Juristas dizem BASTA a Bolsonaro!

Um grupo de juristas e advogados se organizou para lançar neste domingo (31/5) o manifesto “Basta” contra ataques do presidente Jair Bolsonaro às instituições.

O documento já tem mais de 670 assinaturas e conta com nomes de peso, como Antonio Claudio Mariz de Oliveira, Dalmo Dallari, Celso Lafer, Marcos da Costa, Mario Sergio Duarte Garcia, Pedro Gordilho, Sebastião Tojal e Cláudio Lembo. Também assinam os textos os ex-ministros da Justiça José Carlos Dias, José Gregori e José Eduardo Cardozo.

O texto afirma que “o Brasil, suas instituições, seu povo não podem continuar a ser agredidos por alguém que, ungido democraticamente ao cargo de presidente da República, exerce o nobre mandato que lhe foi conferido para arruinar com os alicerces de nosso sistema democrático, atentando, a um só tempo, contra os Poderes Legislativo e Judiciário, contra o Estado de Direito, contra a saúde dos brasileiros, agindo despudoradamente, à luz do dia, incapaz de demonstrar qualquer espírito cívico ou de compaixão para com o sofrimento de tantos”.

O manifesto aponta crimes de responsabilidade e afirma que o país “é jogado ao precipício de uma crise política quando já imerso no abismo de uma pandemia que encontra no Brasil seu ambiente mais favorável, mercê de uma ação genocida do presidente da República”.

O texto afirma ainda que os juristas que assinaram o documento não vão se omitir em cobrar responsabilidade de todos que pactuam com essa situação.

Íntegra do Manifesto (*):


BASTA! 

“Menos conhecido é o paradoxo da tolerância: a tolerância ilimitada pode levar ao desaparecimento da tolerância. Se estendermos a tolerância ilimitada até àqueles que são intolerantes; se não estivermos preparados para defender uma sociedade tolerante contra os ataques dos intolerantes, o resultado será a destruição dos tolerantes e, com eles, da tolerância...”
KARL POPPER

Basta!

O Brasil, suas instituições, seu povo não podem continuar a ser agredidos por alguém que, ungido democraticamente ao cargo de presidente da República, exerce o nobre mandato que lhe foi conferido para arruinar com os alicerces de nosso sistema democrático, atentando, a um só tempo, contra os Poderes Legislativo e Judiciário, contra o Estado de Direito, contra a saúde dos brasileiros, agindo despudoradamente, à luz do dia, incapaz de demonstrar qualquer espírito cívico ou de compaixão para com o sofrimento de tantos.


Basta!

A Constituição Federal diz expressamente que são crimes de responsabilidade os atos do presidente da República que atentem contra o livre exercício do Poder Legislativo, do Poder Judiciário, do Ministério Público e dos Poderes constitucionais das unidades da Federação e contra o cumprimento das leis e das decisões judiciais (artigo 85, incisos II e VII).

Pois bem, o presidente da República faz de sua rotina um recorrente ataque aos Poderes da República, afronta-os sistematicamente. Agride de todas as formas os Poderes constitucionais das unidades da Federação, empenhados todos em salvar vidas. Descumpre leis e decisões judiciais diuturnamente porque, afinal, se intitula a própria Constituição. O país é jogado ao precipício de uma crise política quando já imerso no abismo de uma pandemia que encontra no Brasil seu ambiente mais favorável, mercê de uma ação genocida do presidente da República.

Basta!

Nós profissionais do direito, dos mais diferentes matizes políticos e ideológicos, os que vivem a primavera de suas carreiras, os que chegam ao outono de suas vidas profissionais, todos nós temos em comum a crença de que viver sob a égide do Direito é uma conquista civilizatória. Todos nós temos a firme convicção de que o Direito só tem sentido quando for promotor da justiça. Todos nós acreditamos que é preciso dar um BASTA a esta noite de terror com que se está pretendendo cobrir este país.

Não nos omitiremos. E temos a certeza de que os Poderes da República não se ausentarão.

Cobraremos a responsabilidade de todos os que pactuam com essa situação, na forma da lei e do direito, sejam meios de comunicação, financiadores, provedores de redes sociais. Ideias contrárias ao Estado e ao Direito não podem mais ser aceitas. Sejamos intolerantes com os intolerantes!

Imagem do manifesto:


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quinta-feira, 28 de maio de 2020

Bolsonaro: delírio ou irresponsabilidade?

Lá vai Bolsonaro descendo a ladeira em aprovação e credibilidade. As pesquisas DataFolha publicadas nos dias 27, 28, 29, 30, 31 de maio e 1 de junho de 2020 mostram isto com clareza. Você poderá encontra-las no pé da página deste texto.

A menos de um ano e meio de exercício do mandato presidencial, não são as críticas da oposição a razão de suas dificuldades, mas as suas decisões, ações e palavras; esse comportamento, fartamente documentado, passou a suscitar até sérias dúvidas quanto à sua inabilitação para o cargo. 


O vídeo da reunião ministerial do dia 22/04/20 foi um divisor de águas, pois mostrou um presidente sem compostura, o que foi repudiado por 76% (*) da sociedade. Nele, com toda a clareza, Bolsonaro sintetizou a sua filosofia:

“Armar o povo - em nome da liberdade - contra o comunismo”.

Proclamou - e nos ameaçou -, assim, com a fina-flor do seu pensamento, com o objetivo de implantar um Estado totalitário e miliciano, de tipo venezuelano, contra um inimigo fantasmagórico.

Não importa que esse inimigo não seja real, pois já acabou a guerra fria; afinal, ainda não existem alguns partidos no Brasil que têm o nome "comunista" em sua sigla? Pouco importa que se saiba que sua existência seja uma homenagem à democracia e à liberdade de organização e pensamento consagrada pela Constituição de 1988; ou, mesmo, que não sejam aspirantes ao poder.  Bolsonaro, se vive no mundo real, sabe disso, mas o elevou ao grau de perigo iminente! Seria esse inimigo fantasmagórico necessário para unir e justificar as suas "tropas" de milicianos armados contra o mal? Esta história mal contada, entretanto, bate inteiramente com as suas posições mais do que conhecidas e documentadas de defensor da ditadura militar, da tortura e da eliminação de comunistas; e os "bolsonaristas de raiz" (**) pensam como ele. Mas são poucos e barulhentos.

Se Bolsonaro pretende lutar contra o risco de uma ditadura "comunista" por que não chama os democratas? Mas não, ele chama o apoio de correntes políticas radicais que têm como objetivo fechar o Congresso e o STF. Alguma coisa não bate, pois estas instituições são os símbolos maiores das liberdades democráticas; e, sem esses poderes rompem-se todas as premissas do Estado Democrático de Direito. E note-se, o que é muito importante, jamais abriu um debate democrático com a sociedade visando explicitar propostas em que críticas legítimas aos poderes legislativo e judiciário pudessem consubstanciar um conjunto de reformas para aperfeiçoa-los.

Dado que o seu pensamento contém uma lógica arrevesada, mais uma vez é lícito perguntar-se se a obscuridade de sua formulação é fruto de dissimulação estratégica ou de delírio. Cresce, portanto, o temor por sua inabilitação. Mas como não o levar a sério se suas decisões afetam a vida de milhões de brasileiros? Delírio ou racionalidade?

A maioria dos eleitores de Bolsonaro, os democratas que nele votaram para promover a alternância no poder e impedir que o PT voltasse ao governo, decepcionados, vêm que o presidente começou a trair os compromissos éticos de sua campanha. Este desvio de comportamento, e de discurso, já teve como consequência a saída do juiz Sergio Moro do governo porque não concordou com a intervenção na PF para proteger o seu clã, o que levou um imenso contingente de seus apoiadores a passar para a oposição. Agora o seu objetivo é transforma-la em polícia política na sua concepção miliciana de Estado. Conseguirá? Sabe-se que haverá muita resistência, porque a PF é uma instituição do Estado com elevado grau de autonomia, o que é essencial para o combate à corrupção.

Tudo isso já estava antecipado quando Bolsonaro fez um "acordão" com Maia e Toffoli para retirar o COAF do ministério da justiça, fragilizar o pacote anticrime apresentado por Moro, acabar com a prisão em 2ª instancia e criar o juiz de garantias. Mal sabiam os presidentes da Câmara e do STF que estavam ajudando a chocar o ovo da serpente! Este desvio da pauta ética exaustivamente proclamada culminou, agora, com a incorporação do Centrão ao governo e com a adesão ao toma-lá-dá-cá; claro, o Centrão cobra por antecipação; por isso o presidente já lhes entregou fundos públicos bilionários.

Todos estes fatos demonstram que Bolsonaro abandonou a pauta ética; o próprio juiz Sergio Moro declarou nestes dias que jamais o presidente esteve empenhado na luta contra a corrupção. O presidente comporta-se, agora, como um fugitivo da polícia e passou a dormir aterrorizado com o medo do seu afastamento por interdição (inabilitação) ou por impeachment (crime de responsabilidade). Tudo isso é lamentável! Inabilitação ou irresponsabilidade?

A pandemia se agrava! O presidente, somando-se ao coronavírus, maximiza o número de mortes. E coloca-se contra a ciência, ao influir junto aos seus eleitores para que descumpram o isolamento social; e obrigou o ministro interino da saúde Pazuello - após a demissão de Mandetta e Teich - a recomendar um medicamento condenado pelas autoridades de saúde. Por isso, a agonia será mais prolongada e se agravará a tragédia!

Além de ter perdido a oportunidade de unir o país em nome do valor da vida, como fizeram os demais chefes de Estado, divide o país e não demonstra qualquer empatia para com os doentes infectados e com as famílias dos já mais de 26.000 mortos. Psicopatia?

Em consequência, dificilmente se reelegerá em 2022, pois a maioria democrática - civis e militares - se unirá contra ele, tal como ocorreu com o PT em 2018. Bolsonaro, sabe disso; por isso, porque sabe contar votos, quer dar o golpe antes para estender o seu mandato.

Mas os militares conhecem a Bolsonaro melhor do que os civis. Não o seguirão em qualquer aventura contra a democracia, muito menos em seus delírios e irresponsabilidades.


Bolsonaro busca todos os pretextos para criar uma crise institucional, como está fazendo agora, ao mobilizar os seus radicais contra a investigação das Fake News pela PF, o que atinge em cheio tanto o “ministério do ódio” quanto a alguns dos seus mais íntimos seguidores e financiadores. Mas, quanto mais radicalizar, mais oposição e resistência despertará e mais estará próximo do seu limite e do seu fim. Provavelmente fracassará, por duas razões: porque não conseguirá dar o golpe; e porque todos esses erros, inclusive sua inabilitação, mais cedo ou mais tarde, lhe cairão no colo.

Em síntese, Bolsonaro não conseguirá o seu intento de promover um retrocesso democrático porque não contará com apoio. Quem o parará? A maioria dos brasileiros, que são democratas: os civis e militares que repudiam todo tipo de ditadura e só querem viver em um Estado Democrático de Direito!

______
(*) Pesquisa DataFolha publicada em 27/05/2020:

Observe que a soma dos que consideraram as palavras do presidente Bolsonaro "Muito inadequadas" (61%) com os que consideraram "Um pouco inadequadas" (15%) é igual a 76%.




(**) Bolsonaro tem dois tipos de eleitores:
(1) os bolsonaristas de raiz, de extrema-direita, como ele, e que são nostálgicos da ditadura militar; estão entre 10 e 20 milhões de brasileiros; 
(2) os democratas que nele votaram para promover a alternância do poder e impedir que o PT voltasse ao governo. São a grande maioria dos seus eleitores, e estão entre 30 e 40 milhões de brasileiros.

Muitos que não votaram em Bolsonaro costumam recusar o fato de que milhões de eleitores de Bolsonaro sejam democratas; mas estão errados.

Por isso, para os fins dessa análise, democratas são os cidadãos que:
1. repudiam todo tipo de ditaduras, sejam elas de direita ou de esquerda; 
2. somente querem viver em um Estado Democrático de Direito.
Ser democrata não é monopólio dos que se situam à direita ou à esquerda do espectro político, e não são democratas os que desprezem as condições acima.

Como corolário, define-se como não-democratas, e de extrema-direita ou de extrema-esquerda, os que defendam regimes ditatoriais e que desprezem viver fora das premissas do Estado Democrático de Direito.


Da mesma pesquisa DataFolha, que corresponde a uma coleta telefônica de dados nos dias 25 e 26 de maio de 2020. O resultado dessa pesquisa foi publicado nos dias 27, 28, 29, 30 e 31 de maio e 1 de junho de 2020. Abaixo são apresentados alguns gráficos relevantes à argumentação desenvolvida no texto:

Pesquisa DataFolha publicada em 27/05/20 - lockdown e isolamento social

Pesquisa DataFolha publicada em 28/05/20 - avaliação do governo Bolsonaro

Pesquisa DataFolha publicada em 28/05/2020


Pesquisa DataFolha dia 29/05/20 - Avaliação do governo na pandemia

Pesquisa DataFolha publicada em 29/05/2020





Pesquisa Datafolha publicada em 30/05/20 - Negociação de cargos




Pesquisa DataFolha publicada em 31/05/2020 - Armamento da população

“Armar o povo - em nome da liberdade - contra o comunismo”. Declaração de Bolsonaro em 22/04/20.  O povo concorda? Vejamos o que diz a pesquisa:




domingo, 24 de maio de 2020

O valor fundamental da vida

O ser humano desenvolveu ao longo de milênios a ideia de que vive num ambiente que está separado dele e à sua volta; e de que, como centro do universo, a natureza estivesse apenas a seu serviço.

Na verdade, os humanos fazem parte do ambiente; dele surgem, o integram, nele interagem e o modificam. Como todos os demais seres vivos, animais ou plantas, surgiram da mesma natureza, e estão submetidos às mesmas leis naturais.


Em todo processo ocorrido na natureza ou na sociedade as forças naturais e as forças sociais interagem, exatamente porque pertencem ao mesmo ambiente.

A resultante da interação entre as forças sociais e naturais, e a consequência da atuação dessas forças podem ser positivas e benéficas, como, p.ex., quando construímos pontes, hospitais, aviões, celulares, computadores, etc. 

Mesmo assim, precisamos sempre estar atentos às consequências ambientais ao usarmos o gênio humano para compreender e usar as forças da natureza.

Pois podemos construir, também, bombas atômicas. E, também, podemos provocar o aquecimento global.

No caso da pandemia, um acontecimento natural de natureza biológica, podemos mitigar a ação letal do vírus, com o isolamento/afastamento social; ou podemos, como Bolsonaro e os que o seguem, nos somar à essa força natural para, contra a ciência, aumentar o número de mortes.

Quem age assim está cometendo crime contra a humanidade, pois está se opondo ao valor fundamental da vida.

segunda-feira, 18 de maio de 2020

Com quem ficarão os militares? Com a democracia ou com a barbárie?

As FFAA ficaram com uma batata quente nas mãos com a eleição de Bolsonaro.

Eles já o conheciam e, agora, no exercício da presidência, o conhecem melhor ainda, e mais do que todos nós civis.

Bolsonaro está sendo muito pior do que as suas piores expectativas! É o que estão dizendo os democratas que votaram nele para promover uma alternância no poder e impedir que o PT voltasse ao governo!


Os militares têm compreensão e amor pela ciência e tecnologia, pois foram, desde a antiguidade, os primeiros a usar os avanços do conhecimento para obter vantagens estratégicas na guerra. Os pacifistas, civis ou militares, ficam de cabelo em pé com este fato, mas é a realidade histórica.

Não surpreende que os militares republicanos, no século XIX, tenham sido influenciados pelo positivismo, filho do Iluminismo, que marcou, na Europa, o encantamento com a descoberta das leis da natureza e com a ciência. Esta influência permanece até hoje em sua formação. Napoleão, p.ex., começou a destacar-se, desde a academia militar, por seu talento na matemática, essencial para calcular trajetórias balísticas; embora não fosse um francês de raiz, pois era corso, foi, em sua época, o oficial que chegou mais jovem ao posto de general.

O positivismo acreditou, neste ambiente, que se poderia, também, com o seu método, compreender melhor as relações sociais e, quem sabe, deduzir as próprias leis do desenvolvimento histórico. Neste sentido o positivismo é primo-irmão do marxismo.

Pois bem, voltemos a Bolsonaro. No segundo turno, a maioria dos militares votou em Bolsonaro. Este passara 28 anos de deputado federal como uma espécie de “sindicalista”, panfletando nas portas dos quartéis em defesa dos seus soldos e demais interesses corporativos. Era um tipo meio folclórico, por seu comportamento radical, e porque fora “expulso” do exército por indisciplina e por suas posições políticas de extrema-direita. O cenário dessa atuação se dá entre o período em que ainda vivíamos sob a ditadura militar até sua eleição em 2018. 

Mas a marca politica do seu discurso, e de sua atuação, no exercício dos mandatos parlamentares, ideologicamente, sempre foi o da defesa da ditadura, da tortura, da eliminação de comunistas, da defesa das armas e da intimidade que desenvolveu com as milícias paramilitares do Rio de Janeiro. Nesta visão de mundo formou seus filhos, e moldou a forma como agem e pensam, e pelas consequências, para o bem ou para o mal, do que lhes irá acontecer na justiça.

Este Bolsonaro não tem qualquer apreço pela democracia e pelo Estado Democrático de Direito. Ultimamente, porque não quer assumir o risco de disputar, e perder, as eleições de 2022, decidiu dar o golpe para estender o seu mandato. E é aí que a coisa começou a “pegar” na sua relação com os militares.

Naturalmente, a vitória de Bolsonaro foi saudada com júbilo pelos militares. Muitos foram chamados para assumir responsabilidades de governo e para assumir cargos estratégicos como ministros. Como profissionais capacitados e treinados estão orgulhosos. E óbvio, seus rendimentos aumentaram. Quem, honestamente, não gosta disso, particularmente se consideram lícito e merecido?

Mas uma coisa é o que Bolsonaro quer, sob a influência de figuras saídas das trevas, como Olavo de Carvalho, Steve Bannon, e do seu “gabinete do ódio”. Outra coisa são os compromissos e os valores dos militares com a democracia e com o Estado de Direito Democrático.

O que Bolsonaro tenta conformar? Um Estado miliciano apoiado em forças paramilitares, no envolvimento das PMs, da inteligência das forças armadas, da institucional - o GSI - e por, último da PF, fechando o círculo de um aparato repressor institucional. Não é muito inovador, reproduz o que já existiu durante a ditadura; a novidade seria a cooptação das milícias urbanas envolvidas com o crime.

Este é o plano da extrema-direita, mas não é o dos democratas civis ou militares. Para este plano dar certo, há, entretanto, uma condição. A de que a sociedade, majoritariamente, concorde em “fechar” o Congresso e o STF! Por isso o estímulo e o apoio que o presidente dá às manifestações em praça pública e em Brasília. Sem isso, o plano perde a sua viabilidade e ele não pode usar o seu poder institucional para dar o golpe. Mas ele já começou, insistentemente, a chocar o ovo da serpente!

O seu plano está perdendo viabilidade e as suas manifestações começaram a ficar pífias, como a de ontem, 17/05/20, em Brasília. Porque?

Surgiu uma estranha ocorrência da natureza, a pandemia do coronavírus. Ela tornou evidente a inabilitação de Bolsonaro para o papel de presidente a que circunstâncias únicas de nossa história o conduziram. Isso os cidadãos esclarecidos já sabiam, mas, na torcida por um Brasil melhor, por um momento, até se esforçaram para esquecer em respeito à institucionalidade democrática.

À pandemia, simultaneamente, se soma a grave recessão econômica, a quebra das empresas e o desemprego.

Mais do que nunca precisamos de união e da liderança de um estadista. Isto é tudo o que Bolsonaro não é. Pior, por sua ação, virou ele mesmo um grave problema sanitário, aumentando o número de mortes.

Volto ao tema inicial. Com quem ficarão os militares? Do lado do conhecimento, da ciência e da democracia? E porquê não dizer, da tolerância, do diálogo, do respeito, da moral, da ética, e da elegância? Ou escolherão a barbárie?