sexta-feira, 22 de outubro de 2021

O #FORABOLSONARO! É A BANDEIRA DE TODOS OS DEMOCRATAS

Depois do relatório da CPI da COVID passamos a um novo contexto político.

Bolsonaro já sabia que a sua chance de se reeleger, mesmo antes dos resultados da CPI, se lhe esvaia por entre os dedos. O seu principal problema, agora, não é mais tentar uma reeleição, mas fugir da justiça: após o término do seu mandato como presidente, precisará, desesperadamente, ter imunidade; conquistá-la, passou a ser o seu objetivo principal.


Por isso, em 7/09, quis dar um golpe. Mas lhe faltou apoio político e militar. As forças político, sociais e econômicas mais relevantes lhe negaram apoio. E as Forças Armadas lhe disseram, claramente, que não iriam seguir o capitão tresloucado para romper com a Constituição e com a legalidade.

Não deu o golpe no 7/09 e não dará mais, embora tenha arrastado para o eixo monumental de Brasília, para a Av. Paulista, e para algumas das principais capitais, multidões trazidas em caravanas, numa logística milionária; cidadãos, diga-se, transformados em massa de manobra, mas que estavam dispostos a apoiá-lo em suas intenções. Saíram frustrados, pois viram que o capitão blefava com um golpe que não tinha força para dar.

Dos crimes de responsabilidade que já cometeu, atentatórios à democracia, e no enfrentamento à pandemia, sistematicamente levantados pela CPI, o seu problema maior, agora, é com a justiça. Felizmente, vivemos em um país cujas instituições democráticas revelam imensa resiliência; por isso, resistiram aos seus ataques golpistas para implantar um regime totalitário.

Voltar à Câmara Federal como deputado desponta como uma das suas possibilidades mais atraentes, pois permaneceu lá por 28 anos praticamente sem trabalhar. Lá, quase oculto e camuflado entre 513 outros deputados, ele poderá gozar, como sempre, as benesses do cargo, e da proteção para permanecer impune. Esta hipótese, certamente, já entrou na análise de suas alternativas.

Por outro lado, para sorte sua, neste já final de 2021 falta uma bandeira unificadora que possa mobilizar, nas ruas, milhões de democratas para derruba-lo por crime de responsabilidade.

O impeachment poderia ser esta bandeira. Mas o país está massacrado pela pandemia, pela recessão econômica, pelo desespero de famílias empobrecidas e pela inflação. Seria correto eleger o impeachment como prioridade, correndo o risco de agravar ainda mais a situação? 

Adicionemos a isso, o fato de que o negócio de ocasião do “Centrão” é não deixar passar o impeachment. Com isso, Lira já amealhou verbas orçamentárias fisiológicas bilionárias até “secretas”. E, para o PT, o impeachment é mera bandeira de agitação, sem querê-lo realmente, pois, o que querem é atrair Bolsonaro para um 2º turno onde será certamente derrotado; claro, gato escondido com rabo de fora. E se estas forças não defendem o impeachment, dificilmente ele passará na Câmara.

Lembremo-nos que quem vai às ruas não são apenas pessoas, mas forças políticas concretas com interesses políticos, sociais e econômicos concretos.

O clamor pelo #ForaBolsonaro!, se não há mais risco de golpe, e se o impeachment está praticamente inviabilizado politicamente, ganhou um outro caráter. Passou a ser a bandeira de todos os democratas pela renovação da política, e para livrar-se de Bolsonaro, pelo voto, em 2022. Doravante, os palanques serão para mobilizar cidadãos em adesão a projetos eleitorais. Esta é a forma mais concreta, confiável e consistente para fortalecermos a longo-prazo a nossa democracia.

O lulopetismo, com Lula como candidato, permanecerá com o seu palanque. O bolsonarismo, com ou sem Bolsonaro como candidato, com o seu. Lula chegou ao seu teto; doravante cairá. Bolsonaro está caindo vertiginosamente. São, ao mesmo tempo, os candidatos mais rejeitados pelo eleitor brasileiro. O Brasil precisa escapar desta armadilha e desta polarização.

Surgirá, agora, o palanque dos candidatos da 3ª Via para levar pelo menos um ao 2º turno. Um deles será o próximo presidente da república. O que os unirá será um projeto para desbloquear o desenvolvimento da democracia brasileira, ética na política e a retomada da prosperidade econômica.

Este é um momento crucial de nossa história; poucas vezes a sociedade necessitou tanto de renovação!

sábado, 16 de outubro de 2021

Não existe espaço para o antilavajatismo no palanque da 3ª Via

O espaço do antilavajatismo e do antimorismo já está ocupado. Essas bandeiras pertencem a Lula e a Bolsonaro pelo mais legítimo merecimento.

No momento em que já começam a se articular as candidaturas que disputarão as eleições presidenciais de 2022, não existe espaço para o antilavajatismo e para o antimorismo no palanque da 3ª Via. E Moro, candidato ou não a presidente, terá um papel destacado neste palanque, para fortalecê-lo e para levar a candidatura da terceira via à vitória. Sem isso, a 3ª Via não se viabilizará enquanto necessidade histórica.


Trata-se de uma questão estratégica, pois não terá qualquer chance o candidato da 3ª Via que queira derrotar a Lula e a Bolsonaro sem assumir, com nitidez, o caráter democrático do combate à corrupção e da luta para acabar com a impunidade. Esta não é uma questão acessória: ela deve ter a sua tradução no texto do programa dos candidatos da 3ª Via e na prática do discurso ativo e claro de campanha para denunciar e romper com os desvios éticos cometidos por Bolsonaro e por Lula. Esta questão deve ser uma marca inequívoca do compromisso democrático e histórico da 3ª Via.

Expressei, sinteticamente, esta opinião em post feito no grupo de Eduardo Jorge no Facebook. Dada a forma simples e com poucas palavras com que estava redigido o texto, logo recebi da amiga, Marialva Thereza Swioklo uma procedente crítica de que o texto deixaria depreender que eu estaria “indicando …o ex magistrado Moro como o candidato de sua (minha) preferência”. E prosseguia: “…Sim, ele pode ser candidato, mas se os acontecimentos nos levarem à escolha de outro nome, com muito maior chance, devemos abraçar a luta para que esse candidato consiga expurgar a dupla diabólica.” Considero pertinentes as suas considerações, particularmente porque eu e Marialva convergimos quanto ao papel positivo da Lava-Jato e no respeito a Moro.

Respondi, nos termos a seguir: “…já começo pelo fim, quando você me alerta de que a 2ª parte do texto pode dar ensejo à interpretação de que eu esteja defendendo a candidatura de Moro…”. Segue, abaixo, o teor da resposta.

Mas é uma interpretação errada sobre o que realmente penso. Felizmente, já me manifestei sobre isso, por escrito, diversas vezes, em posts e comentários em minha LT no Facebook, e aqui neste grupo; e, também, em diferentes artigos publicados no blog “Decisões Interativas” (*). Em todas as vezes, eu disse, sem excessão, que não considero Moro com o perfil e a trajetória que o indiquem para ser um candidato a presidente. Penso, mesmo, caso queira ingressar na política, que esta não é a sua melhor porta de entrada. E que, de minha filosofia política, não estou à espera de um salvador.

E tenho manifestado tantas vezes quanto, e também por escrito, que o considero um cidadão íntegro e competente, que prestou grande contribuição ao Brasil com sua participação na operação Lava-Jato, e que demonstrou imensa coragem e senso estratégico ao ter prendido e condenado alguns poderosos criminosos de colarinho branco, inclusive ao próprio Lula.


Com todas as letras, Moro, como um democrata, não precisa pedir licença para entrar na 3ª Via, pois ele já faz parte dela, e busca, como nós, uma alternativa ao lulopetismo e ao bolsonarismo. É, pois, indispensável que ele esteja no palanque da 3ª Via, para fortalecê-la e para dar a ela perspectiva de vitória. E ele pode ter este papel sem, necessariamente, ser candidato a presidente da república.

Voltando, agora, ao início. Óbvio, seria falso dizer, ao mesmo tempo, que não existe espaço para o antilavajatismo no palanque da 3ª Via e, em seguida, vetar a presença de Moro neste mesmo palanque. Ninguém acreditaria na seriedade disso! Tal palanque fake de 3ª Via seria o sonho de seus adversários; e seria uma arrogância delirante, ou uma malandra artimanha, neste caso, com três objetivos:
  1. não querer que a 3ª Via realmente ganhe, pois seria o mesmo que dizer que a influência de Moro e os seus milhões de votos não são necessários à vitória;
  2. como tática esperta para tirar votos de Bolsonaro e depois votar em Lula no 2º turno;
  3. como tática esperta para tirar votos de Lula e depois votar em Bolsonaro no 2º turno.
É preciso ter claro que quem decidirá se Moro será candidato a presidente será ele mesmo, independentemente do que pense qualquer um de nós. Se se candidatar, ou não, tudo o que podemos esperar é que ele represente um papel importante e positivo no fortalecimento da 3ª Via e na construção de uma unidade que garanta a ida de um de seus candidatos para o 2º turno, ajudando a romper com o egoísmo e o personalismo que são marcas culturais de nossa política.

Permitam-me dizer como votarei no 1º turno: no candidato da 3ª via que tiver a maior chance de chegar ao 2º turno (como será revelado inequivocamente pelas pesquisas de véspera). Os nomes estão postos, não há muito o que inventar: poderá ser o Ciro Gomes, o Alessandro Vieira, o Mandetta, o Rodrigo Pacheco, o Eduardo Leite, o Dória, ou o próprio Moro; e os listo sem manifestar minha ordem de preferência por qualquer deles.

Escrevo este texto porque acredito que a 3ª Via possa ganhar. Para isso, é necessário que cada um de nós saia do seu cercadinho e que, doravante, os seus candidatos articulem um palanque unitário para as manifestações e lutas democráticas que se seguirão. Dessa lógica, deixemos que o PT se deslumbre com os seus próprios palanques não unitários e “vermelhos”.

Finalmente, se não é proibido sonhar: que os candidatos da 3ª Via pactuem convergir em compromisso histórico-democrático para uma candidatura unitária de 1º turno. Passos neste sentido já foram iniciados. Terão essa sabedoria e grandeza? Acho que vale a pena tentar!

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quarta-feira, 13 de outubro de 2021

Um encontro improvável

Este texto foi publicado originalmente no grupo “Jukebox - música dos entas” do Facebook. Ele é um encontro criativo da memória musical de amigos que mostram a sua sensibilidade, suas alegrias, suas saudades e até suas dores via as músicas que marcaram as suas vidas.

Trago abaixo o relato de uma deliciosa história que vivi, e que postei no Jukebox:

“Em certo dia, quando estudante universitário, tive um encontro casual, insólito e improvável com um dos compositores de uma das jóias da música popular brasileira.

Permitam-me descrever o contexto. Eu fiz o Curso de Engenharia na Escola de Engenharia da UFRJ entre 1966 e 1971 na Ilha do Fundão. Logo após o término do curso, engatilhei no mestrado em Engenharia de Produção na Coordenação dos Programas de Pós-graduação em Engenharia (COPPE), entre 1972 e janeiro de 1974, quando defendi a tese. No longo período em que circulei por aquele habitat os colegas me conheciam por “Müller”, o sobrenome de minha mãe.

A arquitetura da escola foi pensada para abrigar as aulas e as práticas do curso, que naquela época ainda era seriado, do 1º ao 5º ano. Os dois primeiros anos, considerados básicos, no Bloco A, um prédio mais alto com seis andares, onde ficava a direção da Escola, anfiteatros imensos de aula e os laboratórios das disciplinas de física, química, geologia, etc.. Neste prédio, no térreo, com pé direito muito alto, entre as suas colunas, era onde se realizavam as assembléias estudantis, algumas memoráveis que antecederam a passeata dos 100.000, em 1968, quando a juventude foi às ruas contra a ditadura e pela democracia. Saindo deste prédio, se sucediam os Blocos do B ao H, das especializações, que eram cursadas após o 3º ano. Lá se sucediam mecânica, civil, etc., até o H, dos cursos de engenharia elétrica e eletrônica. Eu cursava Eletrônica. A COPPE ficava no bloco G.

Pois bem, éramos todos jovens, e eu, já no 5º ano, caminhava no longo corredor que ia do Bloco A ao H. O ano foi, provavelmente, 1971. Não me lembro exatamente como a conversa começou, mas foi inesquecível, com um colega mais jovem, sobre uma música que fazia sucesso extraordinário nas rádios: “Amigo é pra essas coisas”, na interpretação do MPB4. O jovem então disse: “Eu sou o compositor dessa música”. Confesso: não consegui evitar uma reação de ceticismo, embora respeitosa; ele, a quem eu não conhecia, estudante de engenharia, com pouco mais de vinte anos, se dizia ser o improvável compositor/autor de um sucesso retumbante, de uma maravilhosa música cuja letra genial consistia em um diálogo casual entre amigos onde um desabafa sobre o amor que chegara ao fim. Um contexto inovador e genial, em um diálogo que você só esperaria, em princípio, entre homens mais vividos. Claro, do ceticismo, fiquei curioso, perguntei se ele era músico, ele disse que sim, que tocava violão. Chegamos aos nossos destinos; “até logo”, eu já sabendo o seu nome, e grilado com o meu ceticismo.

Silvio da Silva Jr., 2012

Era verdade, o seu nome é Silvio da Silva Jr. (*), formou-se em engenharia civil; o seu parceiro, tão jovem quanto ele, estudante de medicina à época, foi, nada mais nada menos, do que o Aldir Blanc. Abaixo, a gravação do MPB4 que fez sucesso à época.



Eis a sua letra genial:

AMIGO É PRA ESSAS COISAS

(de Silvio da Silva Jr. e Aldir Blanc)

Salve
Como é que vai
Amigo, há quanto tempo
Um ano ou mais
Posso sentar um pouco
Faça o favor
A vida é um dilema
Nem sempre vale a pena
O que é que há
Rosa acabou comigo
Meu Deus, por quê
Nem Deus sabe o motivo
Deus é bom
Mas não foi bom pra mim
Todo amor um dia chega ao fim
Triste
É sempre assim
Eu desejava um trago
Garçom, mais dois
Não sei quando eu lhe pago
Se vê depois
Estou desempregado
Você está mais velho
É
Vida ruim
Você está bem disposto
Também sofri
Mas não se vê no rosto
Pode ser
Você foi mais feliz
Dei mais sorte com a Beatriz
Pois é
Pra frente é que se anda
Você se lembra dela
Não lhe apresentei
Minha memória é fogo
E o l'argent?
Defendo algum no jogo
E amanhã
Que bom se eu morresse!
Pra quê, rapaz
Talvez Rosa sofresse
Vá atrás
Na morte a gente esquece
Mas no amor a gente fica em paz
Adeus
Toma mais um
Já amolei bastante
De jeito algum
Muito obrigado, amigo
Não tem de quê
Por você ter me ouvido
Amigo é prá essas coisas
Tome um cabral
Sua amizade basta
Pode faltar
O apreço não tem preço
Eu vivo ao Deus dará
O apreço não tem preço
Eu vivo ao Deus dará
O apreço não tem preço
Eu vivo ao Deus dará

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segunda-feira, 4 de outubro de 2021

Para o PT a bandeira do impeachment é mero jogo de cena

Permitam-me começar com um desabafo. Até o dia 2/10, como simples cidadão, estive empenhado na convocação de todas as manifestações #ForaBolsonaro! Mas o quadro mudou.

Não existem mais bandeiras unitárias: o risco do golpe está afastado depois do 7/09, o que é muito bom; e o Centrão e o PT estão empenhados em não deixar passar o processo de impeachment de Bolsonaro na Câmara Federal, o que é muito mal.


Afastado que está o risco do golpe, a última bandeira de caráter democrático capaz de motivar grandes mobilizações unitárias, seria a do impeachment, apoiado por 56% da população, como mostrado na última pesquisa DataFolha.

Mas ao PT não interessa o impeachment, porque pretende manter a configuração de 2º turno mais adequada para a vitória de Lula, quando derrotará com conforto a Bolsonaro. Ao contrário, seria uma disputa de Lula com um candidato da 3ª Via, onde poderá perder no novo quadro incerto que se configurará.

Por isso, para o PT, o impeachment é apenas uma bandeira de agitação. Não passa de um mero jogo de cena, de que são useiros e vezeiros. O que pretendem ao levantarem essa bandeira de forma fake? Como sabem da sua inequívoca adesão popular, atrair para suas manifestações e palanques não unitários um público que vá além dos seus próprios militantes e dos de seus partidos aliados. Claro, se o impeachment nao passar, a culpa será do “Centrão”! Mas mal conseguem esconder que o único objetivo que perseguem passou a ser o de transformar as manifestações em palanques eleitorais para Lula.

Não se pode pedir ao PT que não adote a estratégia que julgue melhor para si! Como sempre, não estão interessados na unidade das forças democráticas, e Lula não quer dividir o palanque quando já figura como um potencial vencedor das eleições. Todos os que não estão no projeto do PT precisam ver isto com clareza.

O que se pretende, desta análise, é demonstrar que dificilmente se imporão razões político-estratégicas que levem os vários seguimentos do campo democrático a investirem em novas e massivas manifestações, sabendo-se de antemão que não serão unitárias. E é impossível fazê-las com o PT, a não ser se for para aderir à candidatura de Lula.

Doravante os projetos programáticos dos diferentes seguimentos políticos começarão a ser levados em palanques múltiplos. Está inaugurada a temporada em que os palanques das manifestações passarão a estar carimbados com as cores dos diferentes projetos eleitorais que se apresentarão para 2022. A 3ª Via acertaria politicamente se montasse um único palanque; isto é possível, e demonstraria sabedoria histórico-estratégica se conseguisse convergir para uma única candidatura a presidente.


Como devem agir os democratas empenhados em levar à vitória, em 2022, um candidato da 3ª Via para realizar a missão histórica de quebrar e derrotar a trágica polarização bolsonarismo versus lulopetismo? Devem fazer suas próprias mobilizações, unidos em torno do único pacto unitário real e objetivo nesta conjuntura: a Democracia e a defesa do Estado Democrático de Direito. O povo quer feijão, trabalho, democracia e paz! E, engajar-se em um projeto político em que a luta contra a corrupção ou, mesmo, o impeachment, não sejam jogos de cena, pois reconhecem nelas um profundo caráter democrático!

Conseguirá a maioria dos democratas, exatamente os que já estão cansados de Bolsonaro e do PT, montar palanques massivos, amplos e representativos? Se sim, passará no teste que a história exige de quem pretenda ser alternativa de poder!

domingo, 3 de outubro de 2021

As Forças Armadas não apoiam o golpe que Bolsonaro quer dar

O título deste texto é afirmativo. Uma temeridade, não é? Mas é uma questão fundamental para a formulação da estratégia política dos que desejam um futuro democrático para o país. Os que concordam com essa formulação se unirão em sua diversidade, e em múltiplos palanques, unidos pela Constituição e pela defesa do Estado Democrático de Direito, e sairão da defensiva.

Bolsonaro está em processo crescente de isolamento político. Objetivamente, as pesquisas mostram:
  • 70% dos brasileiros somente querem viver em um regime democrático (*);
  • 57% dos brasileiros nunca confiam nas declarações do presidente (**);
Politicamente, isso se traduz em uma tendência de queda de suas perspectivas eleitorais, e as pesquisas mais recentes já mostram a tendência de que seria derrotado pelos seus mais conhecidos oponentes se disputasse com eles o 2º turno das eleições presidenciais de 2022.

O seu desespero é visível e, por isso, sonha com um golpe militar para governar ditatorialmente. Tentou dá-lo nos dias 7 e 8 de setembro, mas algo o obrigou a parar. Sem dúvida, valeram - para contê-lo em seu intento golpista -, as manifestações e ações tempestivas e fundamentais dos representantes dos Poderes da República, do STF, do Congresso Nacional. E foram fundamentais as manifestações de representantes das entidades da sociedade civil, do mundo do trabalho e do capital; dos órgãos de imprensa e das redes jornalísticas comprometidas com a democracia; e dos cidadãos, em vigília cívica, que se mobilizaram massivamente nas redes sociais.


Militares que integraram a missão de paz no Haiti

A tese de Bolsonaro, repetida em muitas declarações, gravadas em áudio e vídeo, era a de que o “seu Exercito” não lhe faltaria se o povo, nas ruas, exigisse o fechamento do STF e do Congresso Nacional. Coerentemente, planejou o seu golpe levando dezenas de milhares de apoiadores para a Esplanada dos Ministérios em Brasília e para a Avenida Paulista, onde compareceu pessoalmente, discursou e proferiu diatribes graves contra o STF e seus ministros. Foram manifestações impressionantes e os que atenderam ao seu chamado, vindos em caravanas de vários estados, estiveram dispostos a suportá-lo politicamente em seu intento golpista. E, para não subestimá-las, ainda ocorreram manifestações de apoio em várias outras capitais e cidades do país. O plano do golpe foi colocado em ação!

Entretanto, algo não deu certo, por isso precisamos nos debruçar sobre a questão militar, pois, na lógica de Bolsonaro, tal plano somente poderia seguir em frente se tivesse o apoio das Forças Armadas. E esse apoio não veio.

Esta questão tem sido objeto de análise por parte de todos os que refletem sobre os inequívocos intentos golpistas de Bolsonaro desde o início de seu governo. Refere-se ao Exército como o “seu Exército”, e já trocara os comandantes das Forças Armadas para que estivessem mais alinhados com os seus objetivos, e para que fossem de sua confiança.


Com isso, teria conseguido conformá-los ao seu objetivo, de que as FA o apoiariam para governar ditatorialmente, e estabelecer um regime totalitário? Teria conseguido pactuar com elas o “fechamento do STF e do Congresso Nacional” para que, com novas regras institucionais pudesse governar de acordo com os seus objetivos? Diante de tantas ameaças, devemos considerar que muitos admitiram que sim!

Tenho defendido, em vários artigos, não ser provável que as FA o seguiriam em seus intentos totalitários. Não só por questões políticas e geopolíticas fundamentais, mas porque não teriam como seguir a esse capitão tresloucado, pois Bolsonaro não constitui nenhum padrão de competência ou moralidade, nem em sua vida pregressa, antes de ser eleito presidente, nem nas práticas atuais irresponsáveis que vem adotando em seu governo, como agora estão sendo reveladas aos detalhes pela CPI da pandemia. Definitivamente, essa “mistura inconveniente” de alguns generais palacianos com Bolsonaro já compromete não apenas o papel institucional das Forças Armadas, mas a sua imagem e credibilidade perante a população.

O 7/09 esclareceu esta questão. Simplesmente, não haverá golpe. As FA não apoiarão esse intento de Bolsonaro. Esta questão é central, pois se não há este risco não há mais a necessidade de uma união de todos os democratas, nas ruas, para resistir a ele.

A estratégia passa a ser outra. A unidade dos democratas deve ser em torno da Constituição e do Estado Democrático de Direito. Este é o único pacto unitário. E deixar que floresça a diversidade da oposição democrática! E é imprescindível que não se confunda a estratégia eleitoral dos democratas, de derrotar Bolsonaro em 2022, com a estratégia de defesa da democracia, que deve unir a todos.

Para ficar, ainda, mais claro, os que estão comprometidos com a vitória de uma candidatura da 3ª Via devem buscar a união não para resistir a um golpe que não virá, mas para derrotar, enquanto necessidade histórica, pelo bem do Brasil, nos 1º e 2º turnos, aos candidatos da trágica polarização bolsonarismo versus lulopetismo.

Retrospectivamente, referencio abaixo os diferentes artigos em que venho tratando da questão militar; eles embasam a tese de que as Forças Armadas não apoiarão um golpe militar; e de que não serão, também, coniventes com tentativas de restringir as liberdades político-democráticas:



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(*) Os gráficos abaixo são da pesquisa DataFolha realizada de 13 a 15 de setembro:


(**)



sábado, 2 de outubro de 2021

Um primeiro balanço sobre as manifestações antibolsonaro de 2/10/21

As manifestações do dia 2/10/21 estiveram longe de serem representativas de todos os democratas, pois somente se viabilizam atos unitários se existirem bandeiras unitárias.

Somente se uniriam, nas ruas, todos os democratas se:
  1. Estivéssemos lutando contra a ditadura, como nos unimos em 1984 na campanha das “diretas já”, que simbolizava a luta pela liberdade de eleger o presidente da república pelo voto direto;
  2. Se estivéssemos lutando contra o risco iminente de um golpe de estado;
  3. Se existisse a bandeira democrática político-moralizadora do impeachment, como foram os de Collor e de Dilma.
Mas nenhum dos cenários acima corresponde à realidade.

Não estamos no cenário (1). Depois do 7/09 ficou evidente que não haverá um golpe de estado; portanto, um diagnóstico de que estejamos no cenário (2) corresponde a um erro de análise. 

Bolsonaro usa o cenário (2) como blefe para amedrontar e ameaçar os democratas e mantê-los na defensiva; e, mais uma vez, o usa como blefe com os seus próprios radicais, para unifica-los e mobiliza-los, como o fez em 7/09, quando vieram às ruas na expectativa de serem protagonistas ativos e nostálgicos de um novo golpe militar restaurador da ditadura inaugurada em 1964.

Esse erro de análise, a persistir, levará a novas manifestações não unitárias, como foram as do dia 2/10, que politicamente se transformaram em palanque eleitoral para Lula.



Os democratas que delas participaram, e que defendem uma candidatura da 3ª Via, fizeram bem de lá estar, mas para aprenderem que esse tipo de manifestações está esgotado enquanto necessidade estratégica da democracia para barrar um golpe iminente, e saíram com o sabor amargo de que estiveram na manifestação errada, pois participaram de comícios eleitorais de Lula.

Quanto ao cenário (3) o seu tempo político de viabilidade está quase se esgotando, pois o impeachment de Bolsonaro não é do interesse do Centrão e, tampouco, do PT, apesar do jogo de cena da Gleisi Hoffman dos quais são useiros e vezeiros. A sua chance é pequena e os democratas, que buscam alternativas ao lulopetismo e ao bolsonarismo, não devem se deixar imobilizar ou confundir por esse cenário fugidio.

Minha modesta proposta: as correntes políticas que buscam uma alternativa a Bolsonaro e a Lula devem investir em se unir e montar os seus próprios palanques. Não temos mais tempo para ficarmos cometendo erros.

REFLEXÕES SOBRE A MELHOR ESTRATÉGIA PARA ENFRENTAR O PROJETO AUTORITÁRIO DE BOLSONARO

Hoje, dia 2/10/21, estão convocadas manifestações em defesa da democracia e para projetar um futuro sem Bolsonaro.

Comíssio da Sé, em 1984, na Campanha das “Diretas Já”

Naturalmente, o conceito de Frente Única Antifascista somente se aplicaria em duas circunstâncias:

  1. Se estivéssemos, já, enfrentando um regime ditatorial fascista;
  2. Se estivéssemos certos de que Bolsonaro não apenas quer governar ditatorialmente, mas de que disponha de força político-militar para estabelecer este regime. Ou seja, de que ele só não dará o golpe se não quiser.

Nenhuma das condições acima retrata a realidade em que vivemos. Sobretudo, no 7/09, ficou demonstrado que o capitão blefava não apenas com os democratas, para ameaça-los e amedronta-los com um golpe; mas blefou, também, com os seus radicais, para mantê-los coesos, e que foram às ruas para apoiá-lo no golpe que ele disse que daria, mas que revelou não ter apoio político-militar (*) para dar. Por isso não houve o golpe, e por isso ele não o dará.

Caminhamos para as eleições de 2022, com previsíveis radicalizações, mas dentro da normalidade democrática. E, provavelmente, não haverá o impeachment porque nem ao PT nem ao “Centrão” interessa ou desejam que ele ocorra.

Exatamente, por esta razão, os palanques que foram montados para o dia 2/10 não serão unitários; ou seja, neles não estarão todas as forças políticas democráticas, mas apenas um conjunto político menor das forças democráticas de oposição a Bolsonaro.

Para exemplificar: para estes palanques Moro não foi convidado; e setores importantes da oposição democrática de direita não estarão representados. Portanto, eles não representarão uma frente única antifascista.

É necessário que isto fique claro. As manifestações existirão, mas correrão o risco de serem transformadas em palanque para a candidatura de Lula.

Se o PT continuar com a sua postura hegemonista, e não compreender o momento histórico, a tendência é a de que, não estando em risco a democracia, doravante, surjam múltiplos palanques fracionados em múltiplas frentes. O futuro até as eleições de 2022 o dirá.

Pessoalmente, eu lá estarei em mais esta manifestação, aliás como sempre, portando a bandeira verde e amarela, porque quero afirmá-la como as cores dos democratas não lulopetistas que defendem uma 3ª Via, pela qual luto e tentarei tornar vitoriosa.

Defendo que devamos trabalhar com um conceito de Frente Ampla Democrática, para ampliá-la e fortalecê-la ao máximo, que provavelmente se desdobrará em múltiplos palanques, sendo quase inevitável que o PT, por seus precedentes sobejamente conhecidos, demonstre inconsistência em seus compromissos democráticos.

Para o bem do Brasil, não podemos perder um sentido de perspectiva e necessidade histórica, que exige derrotar, em 2022, simultaneamente, o bolsonarismo e o lulopetismo.


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(*) A questão militar tem sido objeto de análise por todos os que se debruçam em refletir sobre os inequívocos intentos golpistas de Bolsonaro desde o início de seu governo. Refere-se ao Exército como o “seu Exército”, e já trocou os comandantes das Forças Armadas para que estivessem mais  alinhados com os seus objetivos, e que fossem mais da sua confiança.

Com isso, teria conseguido conformá-los ao seu objetivo de que as FA o apoiem para governar ditatorialmente, e estabelecer um regime totalitário? Teria conseguido pactuar com elas o “fechamento do STF e do Congresso Nacional” para, com novas regras institucionais, posteriormente,  governar de acordo com os seus objetivos ditatoriais?

Tenho defendido que não, que não é provável que as FA seguirão os seus intentos totalitários. E não  teriam como seguir esse capitão tresloucado, pois Bolsonaro não constitui nenhum padrão de moralidade, nem em sua vida pregressa, antes de ser eleito presidente, nem nas práticas corruptas e irresponsáveis que vem adotando em seu governo, como agora reveladas ao detalhe pela CPI da pandemia.

É verdade que “certos” ministros do STF quase que se empenham em liderar uma vergonhosa ofensiva para desacreditar a Suprema Corte, em particular com as recentes decisões que levaram à anulação das condenações de Lula e à declaração de “suspeição” de Moro. E é verdade que a Câmara dos Deputados atingiu o seu mais baixo nível de fisiologismo e irresponsabilidade, particularmente depois que Bolsonaro entregou ao “Centrão” o controle do Orçamento Federal, e a Artur Lira, o seu presidente, a tarefa de liquidar com todos os avanços na legislação para o combate à corrupção. Tudo para escapar do impeachment, depois de já ter cometido uma gama imensa de graves crimes de responsabilidade.

Não faltam, portanto, entre os democratas, razões de sobra para não estarem satisfeitos com o STF e com o Congresso. E, nas Forças Armadas, esses mesmos sentimentos e análises grassam generalizadamente, como no seio da própria população. Mas sabem que o STF e o Congresso Nacional, com todos os seus graves defeitos são instituições da democracia republicana e do Estado Democrático de Direito, e que, elas mesmas, são instituições do Estado e não braço armado de um projeto ditatorial para reprimir, ameaçar e atemorizar o povo.

Retrospectivamente, trago, abaixo, os diferentes artigos em que trato a questão militar para manifestar o meu ponto de vista de que as Forças Armadas não apoiarão um golpe militar, muito menos qualquer tentativa de restringir as liberdades políticas democráticas:

  1. Dia 10/09/21, “O golpe abortado e derrotado”;
  2. Dia 9/09/21, “Bolsonaro ‘botou o galho dentro’”;
  3. Dia 7/09/21, “As Forças Armadas disseram não ao golpe!”;
  4. Dia 30/08/21, “Fuzil, ditadura e morte, ou feijão, democracia e paz?“;
  5. Dia 30/08/21, “ O governo, a população e as Forças Armadas”;
  6. Dia 16/08/21, “A ditadura do capitão tresloucado”
  7. Dia 15/08/21, “O que os militares querem?“;
  8. Dia 8/07/21, “A tentação autoritária”
  9. Dia 3/04/21, “Por que foi possível ao capitão cloroquina dar credibilidade à narrativa fake do golpe militar?
  10. Dia 27/03/21, “Três hipóteses para analisar as perspectivas políticas“;
  11. Dia 18/05/20, “Com quem ficarão os militares? Com a democracia ou com a barbárie?“

sexta-feira, 1 de outubro de 2021

“Decisões Interativas”: um blog para a defesa da democracia

 O “Decisões Interativas” é um blog para a defesa da democracia, que tem como objetivo pensar em saídas para a crise brasileira.

A sua primeira postagem data de 22/10/2014, com a reprodução do artigo “Teriam as universidades federais candidato a presidente?”, de minha autoria, publicado no jornal Correio Braziliense. Ele foi escrito na conjuntura das eleições de 2014, quando eu exercia a função de Decano de Planejamento e Orçamento da Universidade de Brasilia no mandato de reitor do professor Ivan Camargo.

“Cocalzinho” de Marques de Sá, 91

Define-se como “…um blog para democratas, cidadãos que repudiam todo tipo de ditaduras, sejam elas de direita ou de esquerda, e que somente queiram viver em um Estado Democrático de Direito.”

Neste período, sem ter como projeto ser um blog concorrente com as mídias jornalísticas, tornou-se um repositório relevante de crônicas e de artigos, pessoais e de terceiros, para acompanhar os principais acontecimentos  da política nacional. Em certos momentos “mais quentes” as suas postagens chegaram a ser quase diárias.

Com satisfação verifiquei, p.ex., por suas estatísticas, que, no dia 1/10/21, no período de 24h, os seus artigos foram consultados 1.110 vezes até às 10:30h. Nem sempre ocorre esta frequência alta; às vezes ela é até baixa, e depende sempre, o seu aumento, de novas postagens. O mais relevante é que a sua última postagem fora responsável, neste dia, apenas por 47 visualizações deste total de 1.110 consultas, mostrando que os que acorreram ao blog nesta data manifestaram interesse por uma gama mais ampla de artigos, alguns bem mais antigos.

Só me resta desejar que este interesse seja por parte de verdadeiros democratas, pois o negacionismo e o obscurantismo não encontram guarida no conteúdo de suas postagens! Gratifica-me, imensamente, verificar o crescente interesse pelo seu conteúdo, embora, até este momento, não tenham sido usados quaisquer dos mecanismos disponíveis e legítimos para o impulsionamento do seu conteúdo.

Ah…, sim, nele, pela orientação adotada até hoje, não são colocados quaisquer outros produtos à venda, a não ser o sonho  da democracia. Mas não quero que você se surpreenda, neste sonho de democracia não existe espaço para a espera de “salvadores”, de populistas, mitos, personalistas, etc.. O blog é uma ode ao espírito da ciência!

E não espere falta de posicionamento: acredito que o combate à corrupção tem um caráter democrático e civilizatório. Em poucas palavras, eu quero acabar com a impunidade dos poderosos e fazer valer o espírito do Art. 5º da Constituição, de que não podem existir brasileiros acima da lei. Difícil, não é? Mas eu não desisto!

Carlos Alberto Torres