sábado, 27 de março de 2021

Três hipóteses para analisar as perspectivas políticas

As três hipóteses, abaixo, se corretas, mudam a nossa perspectiva sobre como analisaremos, a seguir, o desdobrar dos acontecimentos políticos.


O seu enunciado não está baseado em informação privilegiada oriunda dos quartéis. Mas decorre da observação informada dos acontecimentos políticos. Sobretudo, se observados por análise lógica.

Se você é cético ou descrente quanto a elas, pelo menos as submeta a teste. E faça-o, ainda, com mais rigor, considerando o agravante, que as torna mais inverossímeis, de saber que, em meu subjetivismo, eu “torço” para que elas sejam verdadeiras. Mas se isso pode ser um agravante na análise concreta da realidade concreta, talvez, de partida, este possa ser o único ponto de convergência entre nós.

Pois bem, hipótese 1: devemos separar o desejo incontestável do capitão cloroquina de dar um golpe e de governar ditatorialmente, de convicção igual de que este seja, também, um projeto de setores influentes na mais alta hierarquia das FFAA.

Ora, diriam, não existiria um conjunto de militares e de ex-militares que apoiariam e que desejariam um golpe? Sim, existem os chamados “intervencionistas” que defendem isso, com o fechamento do Congresso e do STF; fazem manifestações, concentram-se na porta dos quartéis, etc.. Às frequentes ameaças do capitão e do seu clã, vez por outra somam-se vozes isoladas, no Clube Militar, etc.

Isto nos manteve assustados até recentemente: não podíamos ter convicção até que ponto haveria mesmo um projeto golpista real em andamento, até que ponto seria um blefe do capitão e até que ponto isto não estaria presente apenas em sua cabeça delirante.

A bem da verdade, o alto comando das FFAA em todo esse tempo se manteve absolutamente afinado com os seus compromissos Constitucionais. E ninguém negaria aos militares a perfeita compreensão de que um golpe não receberia, no cenário internacional, nenhum apoio dos países relevantes em termos geopolíticos!

Mas adveio a pandemia, e o capitão revelou o seu descolamento da realidade e o seu fracasso em combatê-la. Quem não estivesse vivendo em uma bolha, logo perceberia o quão insustentável era essa política criminosa, de um sociopata, de “trocar” um certo número de vidas para alcançar uma hipotética “imunidade de rebanho” e pela manutenção da atividade econômica. Já ultrapassamos os 300.000 mortos e sabe-se lá onde chegaremos!

Hipótese 2: óbvio, os militares logo se lembraram daquele tenente que tinham sido obrigados a expulsar da força por incompatibilidade com a farda, e que agora se diverte em empregar, humilhar e exonerar generais. Hoje, sua presença no governo se dá como uma “estratégia de redução de danos”, pois já estavam lá, ocupando alguns dos cargos mais importantes da Esplanada, quando essa realidade, dramática e contundentemente, lhes caiu sobre a cabeça mais de três décadas depois. Não vão abandonar o barco, e atuam para impedir que o governo e o país parem, pois não podem negar que votaram no capitão, que ficaram felizes com sua vitória e de que aceitaram participar do governo por apostarem no seu sucesso. 

Ninguém o leva mais a sério. Se, por absurdo, os militares estivessem em um projeto golpista, o primeiro a dançar seria o próprio capitão, pois até para liderar um golpe tem-se que gozar de respeito. Agora, tudo o que evitam é que venha o impeachment imediato! E pactuaram não abandona-lo se ele não cometer um desatino que considerem insustentável; mas as FFAA já estão muito desconfortáveis, vide o Gal Pazuello, que ao fracassar seguindo como capacho as ordens do capitão, as deixou muito mal. Falta pouco, não para que se empreguem no projeto do golpe, mas para que o abandonem!

Conclusão: os militares querem ver o capitão pelas costas, e não querem que membros de suas famílias e os seus soldados morram de COVID-19, sem oxigênio e sem UTI, nas filas dos hospitais!

Hipótese 3: a mais simples de aceitar; quem desejaria dar mais quatro anos de mandato para o capitão cloroquina? Nem nós, nem os militares! Naturalmente, refiro-me à maioria dos eleitores brasileiros, civis ou militares, que são democratas!

Pois bem, se essas hipóteses passarem a ser tomadas, com as devidas cautelas, como as que descrevem com maior probabilidade o que sentem e pensam os militares (*), estamos na obrigação de examinar novos cenários.

Um deles, é o de que o capitão cloroquina não vá, sequer, ao 2º turno.


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(*) Tenho me debruçado sobre este tema pois o considero crucial para a compreensão das perspectivas da democracia brasileira. Em 18/05/2020 postei este artigo no blog Decisões InterativasCom quem ficarão os militares? Com a democracia ou com a barbárie?

2 comentários:

  1. Carlos, um golpe de Bolsonaro seria sempre um golpe contra os Generais, mesmo que estes fossem forçados, por alguma circunstância particular, à apoiá-lo. O problema é que este é apenas um aspecto do novo protagonismo militar desde 2018: o outro, é o veto à Lula.

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  2. Caro Hamilton, obrigado pelo comentário; eu gostaria que você descrevesse melhor como seria o “golpe contra os Generais”.Figura-se, em minha opinião, como pouco provável haver um golpe sem que as FFAA o apoie.

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