sexta-feira, 4 de março de 2016

A XIII Internacional (*)

O dia 04/03/2016, ficará marcado como o da condução coercitiva de Lula, de sua família e de seus mais próximos assessores, para prestar depoimento, na 24a fase da Operação Lava-Jato, que investiga a relação do ex-presidente com empreiteiras envolvidas no esquema de corrupção da Petrobras.

A condução coercitiva de Lula e a prisão de João Santana inspiram o esboço de uma novela com todos os seus ingredientes. Ela nos permite uma reflexão coletiva; particularmente, os que, pelo menos uma vez, já votamos em Lula. A arte talvez nos permita o distanciamento para pensarmos sobre a sua personalidade complexa, e cheia de imensas qualidades e defeitos.


Um enredo envolvendo a articulação de uma grande empreiteira global com um ex-presidente, transformado em seu maior criador de negócios - grandes obras - preferencialmente em países que lutam para superar a pobreza e a miséria. Uma estranha aliança, em que as partes não exigem uma da outra unidade ideológica, mas apenas convergência de interesses!

No mundo pós guerra-fria, onde a democracia política se impõe, as eleições passaram a ser a forma de se chegar ao poder; porém, elas são muito caras em toda parte!

O ex-presidente, baseado em seu prestígio internacional, se coloca o objetivo político de ajudar a eleger governos populares na América Latina e na África. Convenceu-se, entretanto, do caráter estratégico e revolucionário da corrupção para realizar esse projeto de poder além-fronteiras; ou seja, de que a corrupção restaria plena e moralmente justificada se fosse para levar a boa e justa causa popular à vitória eleitoral, e derrotar as "elites conservadoras”!

Transformado em projeto internacional, seria necessário constituir fundos, com muito dinheiro, baseados nas obras superfaturadas da Odebrecht, e de suas associadas, em vários países (**). No Brasil, a empreiteira já ganhara experiência com essas associações, como revelado pela Lava-Jato, ao participar de um cartel de empreiteiras criado para vencer licitações fraudulentas, e para superfaturar obras de várias estatais, como a Petrobras; para isso, utilizavam-se de funcionários  dessas empresas, e de operadores externos especializados na arte de lavar dinheiro!

A adesão a esse projeto seria reforçada com a abertura de linhas de crédito do BNDES para financiar, em vários países, certas obras consideradas estratégicas. Uma audaciosa política de estado, porém conduzida discretamente para não sofrer entraves políticos internos. E a Odebrecht tocaria essas obras!

Todo o dinheiro arrecadado pela empreiteira seria gerenciado no exterior, mantendo-o, para a sua proteção, em contas diversificadas situadas em paraísos fiscais. Uma intrincada e arriscada operação, mas os retornos valeriam a pena, pois esses recursos permitiriam a eleição de governos "populares", que seriam seguidos de mais obras e mais lucros!

Aos candidatos "amigos" seriam oferecidos os serviços do marqueteiro João Santana. Qual candidato "popular" não o aceitaria, particularmente se tudo já estivesse incluído no preço? A empreiteira, usando a sua estrutura internacional, faria os pagamentos dos seus serviços diretamente em suas contas no Brasil ou no exterior!

Esse enredo é apenas o esboço de uma novela, uma obra da imaginação; portanto, limitada em seus detalhes, pois se sabe que a complexidade da vida real costuma superar a arte!

Trata-se de um enredo ficcional constrangedor para uma certa esquerda que se consome em ultrapassadas e atrapalhadas teses. Entretanto, os fatos insistem em dar a esse enredo cores de realidade, que, por sua natureza criminosa, não pode ser assumido e precisa ser negado a plenos pulmões. Esta é a razão porque esse projeto está desabando!

Mas, negando sua natureza, muitos continuam a defendê-lo! Ora, porque, ingenuamente, creiam ser um projeto "socialista" e se identifiquem com ele; ora, porque proclamem que a luta contra a corrupção é apenas parte do discurso conveniente da "direita golpista" para atingi-los, da qual, a Lava-Jato, não seria mais do que seu instrumento; ora, porque, apegados, não querem ver desabar, dolorosamente, sonhos e projetos nos quais empenharam suas vidas. Com isso, desmoralizam e levam para o mesmo saco toda a esquerda democrática, que, duramente, teve papel fundamental para conquistar a democracia!

Não percebem, tragicamente, que a luta contra a corrupção é, sobretudo, uma tarefa histórica e estratégica para o aperfeiçoamento da democracia brasileira, e para a própria saída da crise; e que, portanto, não existe, para a cidadania, tarefa mais radicalmente democrática e republicana!

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(*) Um texto em construção, pois a vida, vertiginosamente, empenha-se em trazer novos fatos para alimentar esse esboço ficcional. Versão dia 04/03/2016.
(**) Sobre essas obras, melhor ir direto ao site da Odebrecht: http://odebrecht.com/pt-br/organizacao-odebrecht/odebrecht-no-mundo

4 comentários:

  1. Perfeito e emocionante texto. Assim o defino, como ex-petista, de carteirinha, por quase 20 anos. Mas, uma tristeza fininha me bateu ...

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    1. Cara Marialva, exatamente. Uma tristeza, às vezes muito grande. Veja só, votei em Lula sempre que foi candidato a presidente. Votei em Dilma em 2010, e fui com meus filhos e netos, bem como em 2003, quando Lula tomou posse, para a Praça dos Três Poderes para presenciar essas posses históricas!

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  2. Bom artigo Carlos! A esquerda, e os demais progressistas, devem lutar para superar os entraves que impedem a sociedade de avançar na democratização. Democracia em todos os seus aspectos (mormente a nacionalização e a democratização dos meios de produção e, principalmente, de seus frutos). Ser de "esquerda" e ao mesmo tempo se aliar intimamente - num mar de corrupção - a esses entraves (monopólios) em benefício de uma geleia socialista - que de socialismo não tem nada - é o fim da picada.

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    1. Caro Sergio o sonho generoso da esquerda jamais morrerá, porque ele é necessário! O maior problema que enfrentamos, agora, e precisamente pela via do governo do PT, a adoção das práticas mais reacionárias, fisiológicas e patrimonialistas que somente atribuíamos à direita brasileira. Agora, é necessário, apoiando a Lava Jato, demonstrar que (1) não estamos à beira de um golpe de direita; (2) que existe uma esquerda democrática que não compactua com a roubalheira! E isso é essencial para que o desencanto não desanime a todos nós que duramente conquistamos a democracia!

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