quinta-feira, 6 de janeiro de 2022

Os fantasmas do passado

Penso que os que já estão engajados na candidatura de Lula se satisfazem com bem pouco para o Brasil.

Por um momento, considerarei, metodologicamente, que este não seja o caso do nobre leitor, a quem convido para abrirmos um diálogo.


Veja, os que defendem, desde já, a candidatura de Lula argumentam que devamos, todos os democratas, nos unirmos contra o fascismo. Mas esta é uma argumentação que peca não apenas pela lógica. Sobretudo, é uma narrativa fake com claros objetivos políticos, pois não estamos enfrentando uma ditadura, Bolsonaro não é o Hitler (embora talvez gostasse de sê-lo) e não estamos vivendo nos tempos da guerra-fria.

Até o dia 7/09 muitos temiam o golpe que Bolsonaro queria dar. Não deu, as instituições democráticas resistiram e as Forças Armadas disseram não ao golpe. Se Bolsonaro, até esta data, blefou para nos assustar, e para levar os seus apoiadores golpistas para as ruas, este risco não existe concretamente. E suas possíveis ameaças futuras à democracia continuarão recebendo da consciência democrática dos brasileiros e das instituições democráticas o mesmo repúdio eficaz, que já recebeu, para derrotar os seus intentos.

Claro, é altamente conveniente aos que apoiam Lula ficarem até hoje apontando para o risco do golpe iminente. Isto lhes é conveniente para que os democratas, assustados com fantasmas, corram para o apoio à Lula argumentando que ele é o mal menor. Mas não devemos nos deixar enganar por esse blefe que só serve a Lula e a Bolsonaro para mobilizar os seus apoiadores radicais.

A questão que está colocada, então, qual é? Trata-se de romper com as concepções políticas que mantêm bloqueado o desenvolvimento de nossa democracia. Quem a bloqueia? Esta pergunta é inconveniente, pois coloca o lulopetismo e o bolsonarismo, simultaneamente, como fantasmas do passado, e filhos reacionários da guerra fria. E se o são, são modelos de pensamento atreladas ao passado e ao atraso político.

Se você sequer faz essas considerações, e já está, simplesmente, engajado na candidatura de Lula porque o considera um modelo do que é bom para o Brasil, então faz parte do que podemos chamar de “lulopetistas de raiz”. Provavelmente, você foi convencido de que a roubalheira petista liderada por Lula foi uma mera conspiração da Cia e do Departamento de Estado Norte-americano conduzida pelo seu agente local Sergio Moro. Se você faz parte deste conjunto, nada se pode fazer, pois você é tão gado quanto os “bolsonaristas de raiz”.

Mas tenho a esperança de que não, para que julguemos proveitoso continuar neste diálogo. Se você é um democrata, deseja o melhor para o Brasil e o seu horizonte vai além de meras questões partidárias e ideológicas, mas considera que as eleições democráticas são uma oportunidade para fazermos críticas corajosas ao que está errado, e lutarmos pelo bem comum, então talvez esteja disposto a considerar estas questões abaixo de lógica elementar:
  1. Já sabe que a única forma de derrotar Lula será retirando Bolsonaro do 2º turno, pois as tendências apresentadas pelas pesquisas sucessivas demonstram, consistentemente, que Lula o derrotará;
  2. E sabe, também, que Lula, provavelmente, será o derrotado, se um candidato da 3ª Via for ao 2º turno. E é, exatamente, esta a razão pela qual os que já estão engajados na candidatura de Lula lutam para conformar um 2º turno com Bolsonaro; a mesma razão pela qual já trabalharam para inviabilizar o seu impeachment.
É necessário que, rapidamente, os democratas, de todos os matizes políticos - de esquerda, de centro e de direita - se deem conta dessa aliança-casamento tácita, trágica e objetiva entre o lulopetismo e o bolsonarismo para manter bloqueado o desenvolvimento de nossa democracia.

Não haverá outro caminho, pois será com a nossa democracia depauperada, saqueada, rota, maltratada e vilipendiada, mas com o voto, que iremos nos livrar desses grilhões que nos prendem ao passado.

4 comentários:

  1. Para viabilizar de fato a terceira via ou via alternativa, era preciso uma boa concertação política entre Sérgio Moro, João Doria é Simone Tebet - uma frente democrática contra o populismo de direita, retógado e anti vacina, o atraso vil e o populismo de esquerda que faz discurso bonito pra ganhar eleição mas qdo chegar ao poder age pelo pragmatismo cujo os fins justificam os meios. Tráfico de influência e lavagem de dinheiro do petismo jamais será esquecido.

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  2. Cara Myrna, agradeço o seu comentário. De fato, os candidatos da 3ª Via precisarão se unir, principalmente para não se atacarem mutuamente. Se não tiverem clareza de que Bolsonaro e Lula são os seus adversários, não haverá chance para qualquer candidato da 3ª via.

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  3. Até concordo com a Myrna, mas com ressalva. Tenho sérias dúvidas sobre o Moro. Ele nunca foi político, pesa sobre nos nesta conjuntura viabilizar um que venha jogar sem as barreiras e seqüelas da prisão de lula, caso contrario já entra perdedor. Não podemos esquecer o poder dessa eleição. Não sei se estou certa, mas sinto um clima de resistência com ele no campo progressista político.

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  4. Cara Lili,

    Quanto a Moro, começo dizendo que me orgulharia e me sentiria honrado se a vida tivesse reservado ao meu próprio filho ter tido o papel que ele teve no combate à impunidade dos poderosos.

    Acho sórdido que cidadãos honestos tenham se deixado convencer por bandidos, de que as provas dos seus crimes de nada valem, aceitando que criminoso é o juiz íntegro de 1ª instância que os julgou e condenou.

    Como se não conhecêssemos a assimetria e a dualidade de um sistema de justiça formatado para deixar impunes aos criminosos poderosos e entupir os nossos presídios apenas com os pobres e os pretos.

    Todos, entretanto, os que me tem dado a honra de ler os meus textos referentes a Moro, e neste blog encontrarão dezenas, sabem que NÃO CONSIDERO QUE MORO TENHA O PERFIL E A TRAJETÓRIA QUE O INDIQUEM PARA UMA CANDIDATURA A PRESIDENTE. Penso que o seu melhor papel seria o de ajudar a construir a unidade político-programática para a vitória da 3ª Via. E torço por isso.

    Finalmente, para que não reste dúvida quanto à minha posição, que defendo com invariável respeito à de qualquer outro interlocutor, julgo que o Brasil não apenas merece mais, mas necessita mais, do que personalidades descomprometidos com a decência e com a ética na política como, comprovadamente, o são Lula e Bolsonaro.

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