quarta-feira, 19 de junho de 2019

Armar o povo: Medo, Ira ou Covardia?

Sempre me perguntei: sacar de uma arma e atirar é um gesto de medo, ira ou covardia? Quando é de coragem?


Isto porque as estatísticas são abundantes em demonstrar que a imensa maioria dos que são mortos por armas de fogo encontram-se desarmados!

Isto me leva à tese de que, se sacadas, armas nas mãos de civis, como instrumentos de matar que são, e não de defesa, normalmente estão na mão de executores e de assassinos de vítimas indefesas.

Claro, isso é óbvio ao mais elementar raciocínio lógico, pois os primeiros a aconselhar aos civis a não sacarem da arma que dispõem, diante de um assalto, são os próprios profissionais de segurança! A vítima do assalto não tem qualquer chance de levar a melhor diante do bandido que já chega de arma em punho, que tem o benefício da vantagem e da surpresa, e que não saiu em campo para levar a pior!

Mesmo profissionais super treinados no uso de armas costumam ser mortos ao tentarem reagir quando surpreendidos em assaltos ou ciladas!

Sim, forças armadas ou policiais preparadas para confrontos armados, que saiam em campo para enfrentar bandidos armados podem levar a melhor! Mesmo assim, a premissa de uma ação bem sucedida está baseada na superioridade de forças, na ação planejada e de inteligência, e na surpresa! Penso ser este o único caso em que possamos caracterizar como coragem o uso de armas, pois se sabe que o inimigo poderá, eventualmente, com suas armas, levar a melhor!

Um argumento frequente em defesa da posse e do porte de armas é que elas servem como instrumento de dissuasão e de defesa, pois um possível agressor pensaria duas vezes antes de atacar se soubesse que a vítima possui uma capacidade de resposta com uma arma. Em uma casa ou fazenda seria como o cão de guarda bem treinado, que afastaria os ladrões de galinha. Mas valeria para enfrentar um assassino profissional? Isto é passante discutível. Penso que os que tenham reais razões para temer por sua vida teriam formas mais eficazes e profissionais para defendê-la.

Os que pretendam ter armas em casa devem considerar todos os aspectos, inclusive os riscos de provocar acidentes irreversíveis. Desde tempos imemoriais meninos têm fascinação por armas. A pior política é esconde-la, por duas razões: meninos, movidos pela curiosidade irão encontrá-las fora da vista dos pais; se encontrá-las poderão usá-las, mesmo que não pretendam ferir ninguém. Quantos pais estão preparados e possuem o tempo suficiente para educar aos seus filhos a conviverem com armas sem riscos? Suponho que sejam muito poucos!

Por fim, gostaria de ousar dizer que existe uma lei comportamental, quase uma fatalidade, que é o fato de que, em geral, “quem saca uma arma, atira”; e a consequência pode ser a perda de uma vida, pois armas foram feitas para matar. Isto porque, se essa arma não está sendo sacada por um profissional treinado, ela provavelmente estará sendo sacada como um gesto de medo ou ira, que transforma cidadãos comuns em assassinos covardes, quando e onde a vida do outro passa a não valer nada.

O Senado recusou o decreto das armas de Bolsonaro por 47 a 28 votos no dia 18/06/19. Acho que foi uma decisão correta, pois a sociedade não pode ser vitimada pelo medo ou ira de ninguém, muito menos, e particularmente, a do Presidente(*)!

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(*) Alguns analistas especulam que o real objetivo de Bolsonaro é político; ou seja de armar os seus eleitores de raiz, de extrema direita como ele. Até este momento esta não é uma tese que eu defendo, mas a deixo registrada devido às notórias e históricas simpatias de Bolsonaro às organizações paramilitares ilegais conhecidas no Rio de Janeiro como "milícias".

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