quinta-feira, 24 de novembro de 2016

Roberto Freire, ministro da cultura

Freire, e o seu partido, o PPS, representa no governo Temer uma vertente da esquerda para a qual a democracia é um valor fundamental. Isto implica afirmar ser impossível existir um sistema social justo sem democracia, que deve realizar-se nos planos político, econômico e social.


Freire é um político, não um artista ou um acadêmico; mas é um intelectual orgânico do pensar e agir sobre como construir um mundo melhor na perspectiva da esquerda democrática. Ele faz parte da longa tradição dos intelectuais do PCB, como Astrojildo Pereira, Oscar Niemayer, Jorge Amado, Graciliano Ramos, Mário Schenberg, Caio Prado Júnior, Mário Lago, Vianinha, Dias Gomes, Ferreira Gullar, e tantos outros. As tarefas que enfrentará não serão nada fáceis nesta conjuntura conflituosa, mas, com essa herança, ele se sentirá pleno de legitimidade no mundo da cultura. E não lhe faltará quem o apoie para que tenha sucesso.

Freire é um conhecido de todos os que participaram do enfrentamento à ditadura militar. Sabem que o seu partido, o PCB - o velho "partidão" -, adotou a estratégia de apoiar uma ampla frente democrática para unir todos os que se opunham ao autoritarismo. Esta política o levou a apostar no fortalecimento das instituições de caráter democrático, como o Legislativo e o processo eleitoral, as entidades sindicais e as instituições representativas da sociedade civil. Isto resultou em um movimento cívico, de massas, nos espaços institucionais, e nas ruas, que permitiu acumular as forças necessárias para reconquistar a democracia, o que culminou com a Assembleia Nacional Constituinte e na Constituição cidadã de 1988.

Quem for fiel à história reconhece a importante contribuição do PCB, embora essa estratégia de enfrentamento à ditadura tenha sido muito criticada à época - como "reformista" - pelos partidos que adotaram a luta armada como estratégia. Os que a defendiam, depois de terem sido derrotados, embora a contragosto, tiveram que aderir à essa visão, caso contrário ficariam fora do processo de redemocratização. Mesmo o PT, que votara contra a aprovação da Constituição no dia de sua promulgação, integrou-se ao processo democrático e chegou, pelo voto, ao poder.

Mas, a correção dessa política custou caro ao PCB! Em 1974, já desbaratadas e derrotadas as várias organizações de resistência armada, os órgãos de repressão da ditadura voltaram-se exclusivamente contra o PCB. Era necessário, então, liquidar o único partido de esquerda que permanecera organizado e funcionando nacionalmente. Abateu-se, então, sobre as suas direção central e estruturas estaduais a mais bárbara ação de repressão, e dentre os centenas de presos, torturados e sequestrados, dez permanecem desaparecidos e insepultos!

Com o fim da União Soviética e da guerra fria, o velho partidão, por decisão do seu X Congresso, em 1992, transformou-se em PPS. Com isso, buscou proclamar com força duas características de sua identidade singular, que já o distinguiam dos demais partidos de esquerda: primeiro, desde 1958, quando rompeu com o estalinismo e apontou a democracia como caminho para o socialismo; segundo, a política assumida em seu VI Congresso, em 1966, após o golpe, quando adotou a estratégia da frente democrática e da via pacífica para enfrentar a ditadura. Aos que acompanham essa digna trajetória, entretanto, o PPS parece ter ficado aquém do que merecia ter alcançado com sua nova perspectiva para ajudar a construir um Brasil mais justo e democrático. Razões, certamente, existem, e devem ser buscadas em suas deficiências e no momento de perplexidade porque passa a esquerda em todo o mundo!

Mas, o mundo dá voltas. Embora o PPS não tenha participado dos governos Lula e Dilma, por suas divergências, agora está no governo Temer, com Freire na Cultura, e com Jungmann na Defesa.

Quanto a Freire, presidente nacional do partido, os que o conhecem se lembram do brilhante e combativo deputado federal constituinte, do candidato a presidente da república que qualificou o debate na eleição de 1989, e do líder do governo Itamar na Câmara após o impeachment de Collor. Sua marca é a combatividade, a capacidade de diálogo e negociação, e a tolerância com as posições divergentes. É tudo, menos uma “Maria vai com as outras”. Suas características, creio, justificam expectativas positivas para a Cultura, e o próprio elogio de Temer ao lhe dar posse como ministro (*).


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(*) http://politica.estadao.com.br/noticias/geral,com-chegada-de-freire-vamos-salvar-o-brasil-diz-temer,10000090102?utm_source=newsletter&utm_medium=email&utm_campaign=manchetes
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quarta-feira, 16 de novembro de 2016

Golpe, revolução ou democracia?

Vivemos momentos tensos, que testam a capacidade de resistência de nossa democracia! Não subestimemos a gravidade da crise! Ela se traduz nos 12 milhões de desempregados, na falência financeira dos estados, e nos milhões de servidores, professores, profissionais de saúde, etc., e aposentados, que estão correndo o risco de não receber sequer os seus salários!


Convivemos com uma imensa crise ética, ligada à econômica, que não pode deixar de ser enfrentada! Esta, na verdade, é uma extraordinária oportunidade histórica de acabar com a impunidade do crime de colarinho branco para construir um Brasil mais justo e democrático.

Mobilizam-se milhares de cidadãos, trabalhadores, funcionários públicos e estudantes, exercendo o direito de manifestação garantido pela Constituição. Eles estão ocupando as ruas, as escolas, as universidades, as Assembleias Legislativas e, hoje, o plenário da Câmara Federal. Sua mensagem de insatisfação é clara!

A democracia é o método para a solução da crise! Mas, não podemos tapar o sol com a peneira! Participam dessas manifestações, embora com diferentes objetivos, grupos de militantes radicais. Eles jogam para criar uma crise institucional! São de extrema direita, propondo um golpe militar, ou de extrema esquerda, com seus delírios de uma revolução popular. Na verdade, com suas teses ultrapassadas e irracionais, tentam nos levar de volta ao passado!

Não somos reféns de seus métodos, nem de suas intenções! Por isso, é urgente que os democratas de todos os matizes saibamos isolar politicamente esses radicais que atentam intencionalmente contra a democracia! E vencê-los, sem violência, mas sem covardia, usando as armas suficientes que o Estado Democrático de Direito nos propicia! 

Se soubermos nos unir, com o valor e o método da democracia na mente e no coração, e com diálogo e negociação, superaremos essa crise. Basta querermos!

Entrevista do presidente Temer ao programa Roda Viva

Esta importante entrevista (*) foi ao ar no programa Roda Viva, TV Cultura, 14/11/16, 22h. Ela foi esclarecedora sob muitos aspectos, mas me ficaram duas impressões contraditórias:

(1) positiva, de que respondeu a tudo o que lhe foi perguntado, demonstrando conhecimento e habilidade para conduzir as delicadas articulações político-legislativas, no Congresso, para aprovar as medidas de caráter emergencial para enfrentar a crise fiscal e financeira do Estado;

(2) negativa, de que é prisioneiro da "santa aliança" formada pelos que temem e combatem a Lava-Jato, o que se traduz em posições dúbias e em pouca disposição para abraçar medidas vigorosas para punir a corrupção, em particular quando envolvem parlamentares e personalidades políticas da república.

A história, todos nós, e as ruas, o julgaremos!


O programa foi gravado na sexta (11/11/16) no Palácio da Alvorada, em Brasília, contou com uma bancada de entrevistadores formada por Willian Corrêa, coordenador geral de jornalismo da TV Cultura e âncora do Jornal da Cultura, Sérgio Dávila, editor-executivo da Folha, João Caminoto, diretor de jornalismo do Grupo Estado, Eliane Cantanhêde, colunista do jornal "O Estado de S. Paulo" e comentarista da GloboNews, e Ricardo Noblat, colunista político do jornal "O Globo" e titular do Blog do Noblat.
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De que forma Temer pode estar sendo prisioneiro da "santa aliança" dos que temem e combatem a Lava-Jato? Analiso duas hipóteses:

1. Caso Temer esteja sendo refém de chantagem, no Senado e na Câmara, dos parlamentares que condicionariam o voto favorável aos projetos de ajuste fiscal ao apoio do presidente, buscando um acordo por cima, na calada da noite, à anistia do caixa dois, à manutenção da prerrogativa de foro, à aprovação da lei de "abuso de autoridade" do Renan, etc., projetos estes para que possam sair impunes dos ilícitos que lhes estão sendo imputados pela justiça; muitos afirmam ser esta a hipótese correta;
2. Caso Temer seja um prisioneiro de sua própria consciência; neste caso ele, Lula, Renan, Romero Jucá, etc., estão no mesmo barco, o de buscar liquidar com a Lava-Jato, em que pese as declarações que possam dar em contrário; o drama de nossa crise é que, também, muitos consideram ser esta a hipótese correta.

Eu gostaria, por enquanto, até prova em contrário, de considerar que a primeira hipótese seja a que mais se aproxime da realidade, sendo Temer mais uma vítima do chamado "presidencialismo de coalizão"; esta é uma distorção do nosso sistema político (por isso ele estaria clamando pelo parlamentarismo); neste caso, para livrar-se da chantagem, precisará apelar para a banda ética do Congresso, para a cidadania, para as instituições democráticas da sociedade civil, para as instituições jurídicas e para as ruas; caso contrário, se não tiver coragem para fazer isso, será engolido por este dragão, jogando fora a oportunidade histórica, que se coloca, de acabar com a impunidade dos crimes de colarinho branco! 

Se a segunda hipótese for a verdadeira, a crise é mais profunda - com riscos institucionais -, e somente o surgimento de um movimento com profundos compromissos com a democracia, com outras lideranças, permitirá romper o impasse; este movimento precisará ganhar as ruas, apoiar-se nas instituições democráticas e ficar longe dos extremos de ultra-direita e de ultra esquerda!

O mais surpreendente, nesta segunda hipótese, por decorrência meramente lógica, é que Temer, com isso, aumentaria o seu cacife para negociar com o PT o apoio às suas medidas fiscais! Neste caso, tanto quanto Lula, Temer estaria na trama de buscar uma anistia ampla, geral e irrestrita aos implicados na Lava-Jato, e isto incluiria os empresários, bem como acordos de leniência generosos para suas respectivas empresas. Isto configuraria, mais uma vez, um acordo por cima, de elites, tão comum na história política brasileira.
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(*) https://www.youtube.com/watch?v=szaxsMK7kCY

sábado, 12 de novembro de 2016

O Mundo de Trump

Jornalista Luiz Carlos Azedo (*)


Estamos todos perplexos, ainda, com ascensão de um empresário arrogante e aventureiro, que faliu quatro vezes e não esconde o passado de sonegador “legal” do fisco de seu país, ao comando da maior potência mundial, os Estados Unidos. Histriônico, xenófobo e machista durante a campanha, Trump atropelou uma quinzena de pretendentes ao posto no seu próprio partido e, depois, derrotou a democrata Hillary Clinton no colégio de “superdelegados”, que define o presidente americano. Ela, com longa estrada na política, venceu a disputa no voto popular. Todas as pesquisas e os principais comentaristas políticos diziam que a ex-primeira dama e ex-secretária de Estado seria a sucessora de Barack Obama, um presidente que orgulharia qualquer país. Deu Donald Trump!

A propósito da eleição, um velho amigo, o sociólogo Marcos Romão, líder negro de sua geração, num comentário carregado de emoção, disparou nas redes sociais: “Quem é este homem que votou no Donald Trump? Sim, eu o vejo na Rússia, na Hungria, na Alemanha, na Polônia, na Argentina, nos EUA, na Argentina e no Brasil. E para onde eu olhar, é um homem, em geral, precarizado no mundo do trabalho, que perdeu todos os direitos que possuía ao perder o emprego seguro que tinha. Este homem que rumina toda tarde diante da televisão, com uma cerveja ao lado, destila no saco um ódio a todos os vizinhos – mexicanos, muçulmanos, negros, estrangeiros, mulheres, gays –, que ele imagina terem ocupado o seu lugar e que seriam as causas de sua desgraça e perda do poder que tinha, em um mundo em ordem, num passado distante.”

Romão, que durante muitos anos morou na Alemanha, onde constituiu família, prossegue com sua alma de poeta anarquista, mas que sabe das coisas do mundo:

“Este é o homem que sai nas ruas da Alemanha contra refugiados.

Este é o homem que na Rússia sai na rua para espancar gays.

Este é o homem que nos EUA destila o ódio contra todo o resto do mundo que não mais reconhece a sua supremacia imperial americana.

Este é o homem que aplaude os esquadrões da morte no Brasil e nas Filipinas.

Este homem frustrado e ressentido descobriu o voto.

Descobriu o mesmo voto que os lutadores pelos direitos civis descobriram na década de 1960.”

É uma visão mais antropológica do que política, mas faz todo o sentido diante de um fenômeno que foge aos paradigmas estabelecidos. O filósofo polonês Adam Schaff, no ensaio “A identidade cultural na pós-modernidade” (DP&A editora), analisa a desconstrução da identidade do sujeito moderno e a crise de representação política no Estado-nação, bem como o fundamentalismo, a diáspora e o hibridismo na globalização. O fortalecimento do nacionalismo e da xenofobia na Europa já era uma realidade, agora exacerbada por uma crise humanitária sem precedentes. A eleição de Trump desnuda a crise de identidade da América profunda, digamos assim. Sua resposta política era inimaginável: a negação do “sonho americano”, do qual Barack Obama é o maior símbolo contemporâneo. A divisão da mais poderosa nação do Ocidente se aprofundou com sinal trocado: o Partido Republicano chegou ao poder pela via do nacionalismo e do populismo.

O Oriente

Mudando de eixo, a eleição de Trump é uma resposta à decadência da hegemonia econômica e política dos Estados Unidos num mundo cada vez mais multipolar. É uma resposta intuitiva que provavelmente ressuscitará o anticomunismo como narrativa política, em razão do fato de que a China é o grande vilão da globalização para a massa de trabalhadores norte-americanos que elegeram Trump. Negros e hispânicos foram hostilizados por Trump na campanha, o racismo é um ingrediente de sua campanha, mas, do ponto de vista da geopolítica mundial, o problema é outro. Quando Trump sinaliza para o presidente russo Vladimir Putin, como o fez na campanha, está mandando um recado para a China. Ou seja, está sinalizando uma mudança de estratégia não somente em relação à Europa, mas em relação a todo o Oriente. Não é uma mudança trivial na política externa norte-americana, desde Richard Nixon.

No seu livro Sobre a China (Editora Objetiva), o ex-secretário de estado Henry Kissinger, grande artífice da reaproximação com a China, destaca que a disputa pelo controle do comércio mundial no Pacífico entre essa potência continental, e os EUA, uma potência marítima, seria a grande polarização do século. No passado, a Inglaterra (potência marítima) e a Alemanha (potência continental), que disputaram o controle do comércio no Atlântico, protagonizaram duas guerras mundiais. Para alguns autores, a China e outros países asiáticos levam vantagem na concorrência com o Ocidente por serem regimes autoritários, sem os percalços da democracia, que vive uma crise de representação. Qual será a resposta de Trump?

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(*) Coluna Nas entrelinhas. Correio Braziliense. Edição de 10/11/16.

quarta-feira, 9 de novembro de 2016

O golpe da anistia do caixa dois

Trama-se, sob os olhos complacentes e coniventes do deputado Rodrigo Maia (DEM-RJ) a anistia ao caixa dois (*) a todos os parlamentares que tenham cometido esse crime para financiar suas campanhas eleitorais. Pretendem, para isso, tomando de surpresa a sociedade, e sorrateiramente, alterar o projeto de lei originado das "10 medidas contra a corrupção" apresentada por iniciativa popular com mais de dois milhões de assinaturas.


O jovem deputado terá que decidir, em seu mandato tampão como Presidente da Câmara, como quer entrar para a história. Tem a oportunidade de colar-se ao anseio da sociedade de acabar com a impunidade dos crimes de colarinho branco, ou se quer, junto com Lula e Renan, frustra-la, e tornar-se um dos líderes da "santa aliança" (**) dos que temem e lutam para barrar a Lava-Jato.

Esta "santa aliança" é um fenômeno sui generis da conjuntura política brasileira. Nada tem de semelhante com a do século XIX, na Europa, de restauração monárquica, que tinha por objetivo conter a difusão do ideário liberal e constitucionalista que se afirmara com a revolução francesa, a não ser pelo fato de que também é uma aliança política conservadora e nada santa.

As características principais da "santa aliança": (1) ela é conservadora, porque reage ao anseio da sociedade brasileira de moralizar a atividade política e de acabar com a impunidade dos crimes de colarinho branco; (2) ela é tácita, pois embora não tenha tido um manifesto ou ato formal de fundação, ela existe, se articula e tem o objetivo claro de barrar a Lava-Jato; (3) ela é suprapartidária, pois articula políticos de todos os matizes, da esquerda à direita; (4) ela possui líderes, sendo o mais proeminente, é preciso que se diga, o ex-presidente Lula; a seguir, na linha de importância, pelas posições institucionais que ocupam, estão Renan Calheiros (PMDB-AL) e alguns dos ministros da ante-sala do presidente Temer; todos tramam, articuladamente, para manter impunes a si e/ou a seus parceiros; (5) somam-se a eles centenas de denunciados ou réus, parlamentares ou não, os que foram citados nos processos; (6) ela possui apoio jurídico qualificado, formado de dezenas de notórios e bem pagos advogados criminalistas e, mesmo, de juízes contrafeitos com a Lava-Jato. Não fazem parte da "santa-aliança" os que não se enquadrem nas caracterizações (4), ou (5) ou (6), mesmo que, por ingenuidade, desinformação, ou cegueira política e ideológica, constituam a base social e política sobre a qual estes se apoiam para desmoralizar e barrar a Lava-Jato.

Têm pressa em votar essa anistia ainda em novembro de 2016. Estão desesperados, pois em poucos dias virá à luz a delação premiada da Odebrecht revelando e expondo a lista dos centenas de parlamentares beneficiários de receber esses recursos provenientes da corrupção. Até as pedras saberão da origem ilícita desses recursos, quer tenham sido declarados ou não na Justiça Eleitoral como doações de campanha.

Essa anistia não é apenas imoral, mas deixa de corrigir uma das principais razões da baixa qualidade da representação popular. Precisamos eleger brasileiros com vocação política e compromisso com o bem comum; cidadãos honestos que, porque não querem receber recursos da corrupção, não conseguem competir em campanhas milionárias, e, portanto, não são eleitos. É indispensável que aproveitemos essa oportunidade histórica para aperfeiçoar a democracia!

segunda-feira, 7 de novembro de 2016

Um pouco de quixotismo não faz mal a ninguém

Werneck Vianna (*)

Afinal, em todos os quadrantes, hoje não se cultua o Cavaleiro da Triste Figura?


Não dá para recusar: por mais desalentadora que tenha sido essa eleição com tantas abstenções, votos em branco ou nulos, ela estabeleceu um marco divisório na política brasileira. Não certamente pelo advento de novas narrativas que trouxessem alento para uma sociedade incerta dos seus caminhos quanto a seu futuro, menos ainda pelo surgimento de novas identidades coletivas ou de personagens que semeassem palavras de esperança, que nos faltaram. Mas, se ela não nos traz o novo, enterra um passado que nos tem pesado como chumbo, nesse longo ciclo errático que vai de Vargas a Lula-Dilma, em que temos sido prisioneiros do processo de modernização por cima que nos trouxe ao mundo com seu culto à estatolatria – do Império de um visconde do Uruguai à República com a linhagem que se inicia com Oliveira Vianna.

Se agora tateamos com o olhar perdido na longínqua sucessão presidencial de 2018, não foi por falta de avisos. Tanto os pequenos abalos que passaram a agitar a superfície da cena política quanto o grande movimento sísmico das jornadas de junho de 2013 não nos serviram para uma incontornável mudança de rumos. Fizeram-se ouvidos moucos a eles, com a presidente Dilma Rousseff, candidata à reeleição no ano seguinte àquelas jornadas de multidões em protesto contra a política tal qual a praticamos, sustentando em campanha eleitoral – em que prometera “fazer o diabo” para vencer – os mesmos rumos malsinados do seu primeiro governo.

Perdidos em agitações estéreis, não reparamos no movimento da Terra que traz consigo a mudança das estações, metáfora famosa de Joaquim Nabuco em Minha Formação. Agora não adianta chorar o leite derramado. Está aí uma sociedade desencontrada da política, uma juventude que começa a descobrir o caminho das ruas pelo mapa de ideias de antanho, sem guias provados, os partidos em frangalhos, com as grandes corporações de Estado atuando sem freios, chegando a ameaçar o espaço do que deve ser reserva da soberania popular, às vezes mal escondendo o interesse próprio.

Essa é uma hora dos partidos e dos políticos, com o que ainda nos sobra deles, de iniciar um processo autocrítico, que para ser verdadeiro reclama a urgência da reforma das nossas instituições políticas, com a adoção de uma cláusula de barreira à representação parlamentar e o fim das coligações eleitorais nas eleições proporcionais, protegendo-se as minorias com os recursos de uma engenharia institucional adequada. Pois é da experiência consagrada que as democracias não tenham ainda encontrado solução melhor que a da representação política, sem prejuízo de que prosperem as formas de democracia direta, presença embrionária na Carta de 1988 que cumpre desenvolver. Sem ela não há salvadores da pátria que nos salvem.

Também é hora dos intelectuais, cuja intervenção em outros momentos difíceis foi seminal para o descortino de possibilidades que viessem a animar a imaginação dos brasileiros na construção do País, bastando lembrar, em rol sumaríssimo, o papel antes desempenhado por Joaquim Nabuco, Euclides da Cunha, Gilberto Freyre, Sérgio Buarque de Holanda, Caio Prado Júnior e Mário de Andrade, cujas obras exemplares inovaram o repertório de nossas formas de agir e de pensar. Tanto a institucionalização da vida intelectual como a crescente especialização de suas atividades – caso extremo nas universidades –, processo que, em linhas gerais, se deve reconhecer como benfazejo, mas tem implicado um apartamento dos intelectuais da vida pública, contrariando uma larga tradição em que se comportavam, desde as lutas pelo abolicionismo, como um dos seus relevantes protagonistas.

Sintoma disso, entre outros, está na atual distância entre eles e os partidos, a quem caberia fecundar com ideias e imaginação. À falta dessa relação vital, estão cada vez mais confinados às páginas de opinião dos grandes jornais e das redes da internet, o que, se importa, é pouco para o que se pode esperar da sua contribuição.

Nesse cenário, em que medram as agitações estéreis de que falava Nabuco, como se viu ao longo do processo recente de impeachment, pode caber espaço para a menção a um manifesto de intelectuais brasileiros em favor do que designam como a ética do convivialismo. Convivialismo, na conceituação do seu principal inspirador, o sociólogo francês Alain Caillé, professor emérito da Universidade de Paris-Nanterre, “é o nome dado a tudo o que nas doutrinas existentes, laicas ou religiosas, concorre para a busca de princípios que permitam aos seres humanos ao mesmo tempo rivalizar e cooperar, na plena consciência da finitude dos recursos naturais e na preocupação partilhada quanto aos cuidados com o mundo” (Manifesto Convivialista – Declaração de Interdependência, São Paulo, Annablume, 2016).

Seus autores, secundados por apoiadores de nomes notáveis da ciência social contemporânea, como Edgar Morin e Chantal Mouffe, e dos brasileiros Gabriel Cohn e Luís Roberto Cardoso de Oliveira, entre muitos outros, esclarecem que não se trata de uma doutrina com a pretensão de se sobrepor a outras, mas sim de reter, em oposição à financeirização do mundo em curso, “o que há de mais precioso” em cada uma delas. Frédéric Vandenberghe, sociólogo do Iesp, principal animador do movimento na universidade brasileira, define-o como uma ideologia que visaria a incorporar o melhor do liberalismo, do socialismo, do comunismo, do anarquismo e do feminismo numa visão de “boa vida com os outros em instituições justas”.

Embora bem ancorados no legado de Marcel Mauss, Karl Polanyi e Antonio Gramsci, os que subscrevem o documento e seus apoiadores, que não contam com forças próprias, salvo as ético-morais, vão precisar de muita energia para se livrar da pecha de quixotismo e levar suas ideias à frente. Mas, em todos os quadrantes, hoje não se cultua o Cavaleiro da Triste Figura?

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(*) Luiz Werneck Vianna é Sociólogo PUC-RIO.
http://opiniao.estadao.com.br/noticias/geral,um-pouco-de-quixotismo-nao-faz-mal-a-ninguem,10000086676. 06 Novembro 2016.
Republicado em:
http://www.fundacaoastrojildo.com.br/2015/2016/11/06/werneck-vianna-um-pouco-de-quixotismo-nao-faz-mal-a-ninguem/

sexta-feira, 4 de novembro de 2016

Como pensa o criminoso de colarinho branco?

Se ele roubou milhões ($) até ser pego, provavelmente, antes disso, já viajou com sua família e com seus amigos para Paris ou pra onde quis; tomou os melhores vinhos e comeu nos melhores restaurantes; comprou carros de luxo e mansões (quem sabe fazendas?); depositou uma parte significativa em um paraíso fiscal, porque é prevenido; se ficou doente, teve os melhores médicos e hospitais. Provavelmente, buscou viver como rico, e cercado do requinte dos melhores cerimoniais!


O tadinho, se der o azar de cair nas malhas da justiça, e de ser condenado e preso, terá que devolver(?) o que roubou; mas, mesmo que isso aconteça, provavelmente já terá tido anos de boa vida! Terá valido a pena?

Antes de tentar responder à pergunta, vejamos a lógica do ladrão: roubar e gozar, "antes"; pagar, se tiver que pagar, "depois". Qual troca fazem essas personalidades criminosas? Eles possuem duas alternativas: não roubar ou roubar; se optarem por esta última, é porque consideram, no balanço entre as alternativas, que os milhões ($) certos recebidos no presente com a corrupção mais do que compensam os custos incertos de uma eventual futura punição! Estes custos incertos futuros, objetivos e subjetivos, são os financeiros, o de exposição pública, o de condenação e o de prisão. Assumem, entretanto, o risco, esperando que o seu crime jamais seja descoberto; ou, se descoberto, que "tirarão de letra" a punição, ou mesmo de que ficarão impunes! Em sua lógica, o crime compensa.

Contam, é preciso que se diga, com a histórica ineficiência da justiça na repressão aos crimes de colarinho branco, e com a nossa passividade, muitas vezes nada ingênua, conveniente e covarde.

Quando, então, não valerá a pena o risco do crime? Quando tiverem a certeza de que terão que devolver o dinheiro roubado, e quando, existencialmente, os anos de boa vida que possam vir a ter com a corrupção não compensarem, em sua imaginação, a certeza das duras penas que receberão! Em síntese, trata-se de estabelecer um sistema jurídico e legal, e a cultura pública e cidadã, de intolerância com a impunidade.

Como ficamos nós, a grande maioria feitos de imbecis, que só queremos e conseguimos viver dos rendimentos auferidos com o serviço socialmente necessário que produzimos com o nosso trabalho? Que caretas somos nós, sabedores desse jogo, ao insistirmos em puni-los severamente e colocá-los na cadeia para que o crime não compense?

Somos dos que consideramos que a Lava-Jato representa o anseio dos brasileiros de acabar com impunidade dos crimes de colarinho branco, e dos que acreditam que o juiz Sergio Moro simboliza a vontade e o compromisso de uma nova geração de profissionais da justiça, filhos da Constituição de 1988, de realizar essa tarefa de caráter histórico e democrático!