domingo, 13 de março de 2016

Nesta manhã, vou à Esplanada

Autor: MARIO SALIMON (*)

O debate sobre a pertinência ou não da manifestação deste dia 13 de março já dura alguns dias, e seria difícil resenhar todo o processo. Contudo, reproduzirei, nos próximos parágrafos, algumas reflexões que se estruturaram a partir de respostas a posts de amigos e amigas, e que representam, grosso modo, as ideias centrais que defendo. As conversas engendraram questionamentos sobre o posicionamento do PT, a probabilidade de violência nas manifestações e, sobretudo, as generalizações feitas sobre quem se coloca como não-governista.
  
Ilustração: Pedro Henrique Garcia

A manifestação do domingo está de pé. Ela estava marcada há muito tempo. Como das outras vezes, as pessoas, salvo os pontos fora da curva, lá estarão sem qualquer ímpeto violento. Se não houver "foul play" dos governistas, estou certo de que nada de mal acontecerá neste domingo.

Há muita gente razoável e sensata se organizando para ir. Mas muita gente mesmo. Não por vingança, por ódio ou por visão seletiva das coisas. Não somos golpistas. Simplesmente, não aguentamos mais o status quo. A coalização governante, que não se sustenta mais técnica, moral ou politicamente, já deu mostras eloquentes de não ter capacidade de nos colocar do outro lado das crises. Sinto-me, portanto, no direito de expressar insatisfação, como farão, hoje, milhões de pessoas. Ao final do regime militar, logo que me mudei para Brasília, e também no ocaso do governo Collor, lá estávamos expressando nosso descontentamento. Muitas das variáveis que estavam em tela naquele tempo seguem inalteradas, e não mudei minha posição em relação a elas. Foi o PT que rotacionou, na prática, seu sistema de ação, ainda que mantenha as mesmas formações discursivas.

Mas, ainda assim, muitos seguem por ele hipnotizados, pois o partido, como qualquer organização, é uma hierarquia sustentada pela manutenção de sua dimensão simbólica. Um grupo minoritário tem capacidade de incidência, cria e dissemina estratégias e narrativas, desenvolvendo atividades relativas à manutenção de sua sobrevivência, isso enquanto a parte majoritária se ocupa das tarefas e atividades que conformam o subsistema tático-operacional. As narrativas são mistificadoras e convincentes, baseadas em heróis e inimigos funcionais, bem como em ideias centrais capazes de criar identificação e coesão, funções fundamentais para que se possa ter controle sobre o coletivo. Isso funciona em um partido, em uma igreja, família ou multinacional telecom.

É comum o estamento tático-operacional simplesmente aceitar, sem questionamento, os desígnios emanados pelo corpo estratégico. A máquina petista tem, hoje, muito dinheiro, e entende poder - e dever - simplesmente comprar os resultados que deseja na militância. As pessoas comuns aceitam o patrimonialismo e a dominação tradicional, pois "tudo sempre foi assim". É o que vejo acontecer, falando francamente, com quem ainda acredita no PT.

Mas, para mim, de nada valem as narrativas quando o estamento estratégico vem conduzindo o país, há mais de uma década, num sentido totalmente contrário a elas. No meu entendimento - e foi o que fiz há dez anos - quem for capaz de se ater à factualidade do que nos mostra o contexto presente deve abandonar e execrar o partido, pois ele é, na prática, o que são seus líderes, quase todos comprovadamente comprometidos com diversos tipos de malfeito, que somam algo já perto de meio trilhão de reais. Essa ruptura deve ser almejada no caso de relação com outros partidos também, ou com qualquer ente que procure substituir nossos desejos por aqueles por ele nutridos. Devemos visar a um caminho de mais autonomia e livre-pensar. Também devemos buscar formas de diminuir a opacidade nas relações com os partidos, o Estado e os governos. É nosso direito, e um dever também, conhecer tudo que há de obsceno nessas transações.

Ilustração: Pedro Henrique Garcia

Algumas questões são recorrentes nas conversas, e tratarei delas como pontos:

1. A corrupção endêmica no partido

Tudo indica que o modus operandi do PT, a despeito do que possa significar a moralidade ou ética de seus filiados, seja hoje baseado no pragmatismo calculativo-finalístico. Em algum momento de sua história, e isto ouvi de um fundador do partido, o PT entendeu que, sem adotar os métodos da "direita", não se colocaria e manteria no poder. Tudo que vemos nos escândalos desde o mensalão confirma tal tese, e este interdiscurso surge com muita frequência como justificativa para as ações moralmente indesejáveis dos agentes do partido.

2. O empresariado impede o PT de realizar seu “projeto”

A classe empresarial brasileira, tal como a política, é patrimonialista e pouco afeita à responsabilidade social, esta vista meramente como ação de RP e potencial correção de imagem. Pensemos nos banqueiros e construtoras. São eles que hoje mandam no país, como faziam há muito tempo. A tolerância do PT a esse modelo, entretanto, mudou com o acesso ao poder. Acaso os petistas teriam sido lenientes com Aécio se a tragédia de Mariana tivesse acontecido nos tempos do tucano, e ele tivesse feito seu primeiro pronunciamento de dentro da sede da empresa, ladeado e, praticamente, constrangido por executivos e asseclas da empresa? Acaso FHC teria sido poupado por reagir apenas uma semana depois, se o fato houvesse ocorrido no governo dele? A Vale e os bancos bancaram parte substantiva das campanhas do PT para o governo de Minas e para o federal. Devem ter bancado de outros partidos também. Empresas pouco se importam conosco, pois o negócio delas é lucro, e, para mantê-lo, precisam controlar quem está no poder. Este, por sua vez, é o negócio dos partidos e seus líderes. Basta um breve raciocínio para se entender o esquema. As empresas não têm colaborado com o povo, mas, é óbvio, atuam na coalizão governante de forma imbricada, e com muita incidência. Os interesses dos partidos, sobretudo do PT, têm sido, indubitavelmente, atendidos.

3. O perigo do surgimento de um cadáver

A eventual presença de outliers, espiões, agitadores e outros tipos de anomalias não deve ser motivo para que um coletivo deixe de se expressar. Essas figuras são sintomas do sistema hierárquico, respostas orgânicas - ainda que doentias - à incapacidade de um agente na tentativa de inviabilizar discursivamente a mobilização do oponente. Veja a ação dos black blocks em junho de 2013. Se fôssemos nos mover por esse tipo de medo, nunca teríamos ido às ruas nos tempos do regime militar, quando, obviamente, havia todo tipo de infiltração.

4. Marchar com Bolsonaro

 No caso do dia 13 de março, haverá ampla mobilização antigovernista, dentro da qual se inserirão grupos muito diversos, pois estão nesse escopo desde radicais como Malafaia e Bolsonaro até pessoas comuns como eu e diversos amigos e amigas, que, posso garantir, não são ingênuos, golpistas, fascistas, aecistas, tucanistas, coxinhas ou qualquer dessas ridículas generalizações, tão precárias do ponto de vista socioexplicativo quanto a palavra "petralha". Não uso uniforme, não marcho, não canto hinos, não sigo carros e não peço ditadura. Associar automaticamente um manifestante anti-status quo à ala ultraconservadora é um erro crasso de análise do contexto que, para mim, constitui ofensa pessoal.

5. Teorias de conspiração

Não acredito que Moro seja um teleguiado da CIA, treinado nos EUA para destituir um governo legitima e legalmente alçado ao poder pelo voto. Como todo ser humano, ele deve ter seus vieses, mas tendo a confiar na lisura da operação Lavajato. Considerando-se o volume de dinheiro gasto pelos réus com advogados de calibre e o posicionamento dos grandes tribunais diante das várias fases da operação, imagino que o juiz paranaense não teria se sustentado se a ação não fosse menos do que o protocolarmente exigido. Moro, assim como o PSDB, FHC, os EUA, é um inimigo funcional do PT, cuja imagem negativa tem que ser alimentada para que se sustentem as narrativas mitológicas do partido. Por isso, os militantes espalham pela web o documento de filiação ao PSDB de um homônimo paranaense dele. Do mesmo modo, tecem falsas ligações da esposa do juiz com organizações inimigas; conexões tão equivocadas que até o próprio site amestrado Brasil247 teve que correr e negar tudo, pois as teias da sociedade em rede acabam levando sempre o impacto a alguém do próprio campo estratégico.

6. O bem que justifica o mal

Dizem muitos que Lula não merece o que está vivendo, porque fez bem ao Brasil. Tendo contribuído com dezenas de organizações ligadas ao desenvolvimento desde os tempos de Collor, discordo muito da concentração dos louros na cabeça do petista. Ele pode ter feito muito - e nem vou começar a falar sobre o que ele desfez, pois basta estar vivo no Brasil para saber - mas não o fez sozinho. Foi beneficiado por processos históricos, ganhos cumulativos e, ao assumir o primeiro mandato, até mesmo sorte de iniciante. Fazer dele um coitado é cair, uma vez mais, na armadilha da mistificação. Essas ações comunicacionais, não duvidem, são calculadas. Os que fazem esse jogo deixam de ser pessoas para ser, predominantemente, mídia. Enfim, vou à Esplanada protestar, e repito: quero a saída da coalizão governante, pelas vias legais e o mais rapidamente possível. É óbvio que ela não mais se sustenta moral, técnica ou politicamente. Temos uma constituição suficientemente robusta, e acharemos uma saída legal para este imbroglio, desde que deixemos de seguir aceitando o inaceitável.

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