sábado, 22 de agosto de 2015

Anotações sobre a aspiração por ética na política

1. Quando o PT surgiu no cenário da política brasileira como alternativa de poder, em 2002, já ficara estabelecido, no imaginário do eleitor, por ação de sua militância, a ideia-força de que um governo por ele hegemonizado politicamente seria mais ético na gestão dos recursos públicos; a ética na política, portanto, teria tido um peso fundamental, enquanto valor, para a vitória de Lula. A esperança vencera o medo, pois esse projeto se transformara em uma poderosa força social e política.

2. Em seguida, fatos comprometedores da imagem ética do PT começaram a ocorrer. Já no primeiro governo Lula o mensalão veio a público em junho de 2005, levando à cassação de José Dirceu em dezembro do mesmo ano. Em 2006, Lula se reelegeu; mas, durante todo o seu segundo mandato novas investigações e fatos foram se acumulando sobre o mensalão. Apesar disso, fruto de seu prestígio, conseguiu, em 2010, eleger Dilma sua sucessora. O julgamento do mensalão no STF arrastou-se até novembro de 2013 terminando com a condenação de vários políticos, do PT e de outros partidos, bem como de diversos empresários operadores do esquema.

3. Um segundo capítulo da corrupção é a deflagração da Operação Lava Jato, em março de 2014, durante o primeiro governo Dilma. Ela começou apurando um esquema de desvio e lavagem de dinheiro na Petrobras. Vários ex-diretores da empresa foram presos, alguns fizeram acordo de delação premiada, e vários já estão devolvendo centenas de milhões de reais. De forma inédita, alguns dos maiores empresários brasileiros foram presos, outros já estão condenados, e outros tantos colaboram em delação premiada. José Dirceu, novamente, preso. Vaccari, o ex tesoureiro do PT, preso. Empreiteiras já estão fechando acordos para devolver quantias que chegam a 800 milhões de reais ganhos em contratos superfaturados! Agora, a Operação já estende-se para o setor elétrico, e não vai parar por aí! E, pela primeira vez na história da república, um presidente da Câmara dos Deputados, Eduardo Cunha, denunciado por crime de corrupção no próprio exercício da função!

4. Dilma, quando venceu as eleições de 2014, embora de forma apertada e dramática, recebeu, mais uma vez, o voto de esperança dos que apoiaram aquele projeto iniciado com Lula em 2002. Não é necessário detalhar o que ocorreu. Basta lembrar que os efeitos acumulados do mensalão, dos desdobramentos da Lava Jato, das mentiras da presidenta na campanha eleitoral, e da crise econômica, fizeram desabar a confiança na presidenta. Pior, fez romper-se, no imaginário de sua base social e política, a crença de que Lula, e o PT, continuassem sendo portadores daquela radicalidade ética, que fora o seu principal capital em 2002!

5. Chego, agora, à hipótese que quero propor. Os brasileiros, como em 2002, anseiam por ética na política, e querem renovar suas esperanças! Buscaram isso com o PT, mas, pouco a pouco, se decepcionaram. Por isso, os que foram espontaneamente às ruas em março, em abril e no dia 16/08, precisam ser bem entendidos! O que querem é viver em um país democrático e mais organizado, que valorize as pessoas pelo seu trabalho e esforço, e não por sua esperteza! Desejam um país mais tolerante e menos dividido! Por isso, não querem perder a oportunidade que a Operação Lava Jato, dirigida pelo juiz Sergio Moro, criou para avançar a democracia brasileira, a de acabar com a histórica impunidade aos crimes de colarinho branco!

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